Você Me Encontra Ali No Fim Do Corredor, Sentadinho
Minha experiência com a vida escolar foi a pior possível. Tive uma professora inesquecível, Dona Milvia, uma pessoa realmente especial, que me incentivava contra todas as probabilidades e no restante só tive professoras que não me davam a mínima porque não tinham paciência ou capacidade para entender que minhas supostas limitações eram mus principais propulsores se bem trabalhados.
Cheguei na escola sabendo ler e escrever de forma absolutamente correta. Minha mãe me ensinou. O que poderia ser algo positivo, virou-se contra mim, uma criança de 06 anos de forma atroz, porque para a minha primeira professora eu saber ler e escrever e não querer fazer bolinas e tracinhos e outras coisas inúteis (para mim), era um imenso problema. Ela me isolou das outras crianças. E até que elas soubessem minimamente ler e escrever, quase lá para o meio do ano letivo, não tive contato praticamente com criança alguma.
Eu ficava no fim do corredor, sentadinho, comendo o lanche que minha mãe mandava ou o que a escola fornecia, lendo revistas em quadrinhos que minha mãe colocava na minha mochila. Ninguém conversava comigo e eu não conversava com ninguém. Quem ia gostar da escola assim? Eu chegava e queria ir embora. Pra piorar, ainda tinha a porcaria do hino nacional que todos os dias tínhamos que cantar, uma verdadeira tortura para mim. Quando questionei o porque recebi a resposta padrão das escolas na época "porque sim!".
No fim do corredor eu lia e observava. Observava as crianças jogando bola no pátio e nunca era chamado. Percebi que ninguém queria ser goleiro e me voluntariei para tanto. Até hoje só jogo no gol, tenho a impressão que não me deixariam jogar em outra posição e teria que ficar no fundo do corredor de novo. Quando não queria jogar no gol, ficava la sentadinho mesmo. Criei um ódio tão mortal da escola que mesmo hoje entro em escolas apenas quando preciso realmente, pois não gosto, acho opressivo, limitante, triste, enfim, uma porcaria de lugar para se estar.
Ainda hoje, quando estou em um plantão de vendas que não tem uma sala específica para a coordenação, me sento no canto e o mais isolado possível e dali, observo. Posso passar o dia todo sem trocar palavra com quem quer que seja e na verdade só falo com corretores quando eles tem clientes na mesa. Estou sempre ali no fim do corredor, sentadinho, absorto em meus próprios pensamentos, querendo estar no meio das rodas de conversas mas sem ter o que falar.
Fico pensando as vezes o que eu teria me tornado com um diploma nas mãos, com educação formal. Talvez a vida fosse outra, mas não sei ao certo se seria mesmo porque me orgulho da pessoa que me tornei ainda que tenha que me sentar no fim do corredor até hoje. Nem sei porque estou falando nisso, apenas lembrei de cheguei ao plantão hoje as 8:20 e sendo agora 14:45 não falei mais que 10 palavras com 3 pessoas diferentes.
É isso
Ouvindo: Tom Jobim
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