Florbela Espanca e a Poesia Que Transborda Da Alma
Florbela, minha bela flor! Como pode alguém escrever de forma tão bela os mais tristes e paradoxalmente otimistas (ao menos para mim) poemas que existem? A poesia de Florbela sempre transcendeu. sempre transbordou de sua alma para encher e também transbordar a alma de tantos e tantos de seus ávidos leitores.
Não são os leitores de Florbela, ávidos por uma leitura simples e superficial de seus escritos ou de qualquer outro escrito que lhes caiam em mãos. Nada disso. São leitores que se deleitam com a repetição da leitura, com a descoberta de que Florbela é atemporal e mais importante que isso, que a beleza e o otimismo convivem lado a lado com o profundo realismo e as vezes até desencanto que emanam de seus escritos. Para ser um otimista, na visão de Florbela, não é necessário ser um alienado com síndrome de Poliana, basta ser alguém que enxerga a vida de forma natural com seus cantos e desencantos, com suas sortes e reveses e no meio de tudo isso é feliz a sua maneira.
A beleza, a profundidade e a atemporalidade de sua escrita podem ser contempladas neste poema:
Eu ...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Talvez ao ler você possa se perguntar onde esta o otimismo de algo assim e eu te digo que o otimismo esta em prosseguir. Mesmo tendo uma visão tão real da vida e em particular de si mesma, ela prossegue, ela vive e escreve, torna a escrita quase um ato político de sobrevivência em meio as excruciantes dores do mundo que ela como pessoa sensível que era sentia muito mais do que os cínicos de plantão que nos rodeiam e a rodeavam também.
Florbela foi para mim, junto com Cecilia Meireles a maior poetisa em língua Portuguesa e lê-la é sempre uma emoção que se renova. Mais uma semana se inicia e cada vez mais preciso das palavras de Florbela.
É isso.
Ouvindo: Frejat
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