Resiliência Em Tempo Integral Não Existe (Inspirado Em Um Post do Padre Fábio De Melo)



Não existe 100% de resiliência. Isso é um mito que muitas vezes eu repito para mim mesmo. Mas a realidade volta e meia se impõe e descubro a distância entre realidade x o que penso ser realidade. É como um pastel muito bem frito, sequinho, lindo de se ver e que a cada mordida se revela sem recheio, vazio. Assim sou eu. Dias da mais pura resiliência genuína borbulhando nas veias, dias em que o discurso é como um pastel cheio de vento.

Não sei quem inventou que eu, você, a humanidade como um todo deve sempre estar bem, feliz, sorrindo, viajando, fazendo da vida um acampamento daqueles com marshmellows  tostando na fogueira e alguém tocando músicas ao violão. Não é assim, não dá pra ser sempre assim, surreal, impossível mesmo. A vida as vezes é um esgoto a céu aberto que tenho que atravessar quer eu queira, quer não porque ficar parado é pior e me contamina ainda mais com as mazelas do tal esgoto.

Sim, na maioria das vezes, em grande parte do tempo, mato no peito os dissabores e continuo, porque acho que é melhor ser alegre que ser triste, mas as vezes ser triste é tudo o que resta porque o estoque de resiliência acabou. Trabalho com o público e mais que isso dependo 100% da imagem que projeto tanto para os corretores quanto para meus superiores, então, a tristeza tem que se dar no fundo da alma, naquele recôndito mais escuro até para que ela rapidamente se dissipe e geralmente ela se dissipa rápido, ainda bem, mas a resiliência  integral é um mito.

No filme Blade Runner, um dos meus favoritos de todos os tempos, temos a figura dos Replicantes, que deveriam ser meros escravos dos seres humanos com data de validade programada em seu nascimento e portanto após um tempo seriam substituídos por versões melhoradas continuamente. Bom, eles gostaram de viver e mesmo sabendo que morreriam, alguns se rebelaram para encontrar o seu criador e buscar uma solução para o seu "problema". Sou um inconformado em tempo integral assim como esses Replicantes e por mais resiliência que eu tente me impor, as vezes preciso me insurgir, gritar, berrar contra o mundo e contra as injustiças que vejo, correr contra o vento e sentir o atrito dele, o vento contra o meu rosto me lembrando que tenho sentimentos, que eles precisam ser preservados, precisam ser compreendidos e muitas vezes são apenas abafados em troca de um conformismo resiliente que por mais plástico que me torne, mais pronto a resistir aos dissabores, por outro lado me torna resistente a fatos que eu simplesmente não quero aceitar, antes quero me insurgir.

As vezes me sinto um Replicante de Blade Runner, que não sabe quando vai pifar, mas sabe que será em breve e luta desesperadamente por mais tempo, por mais vida, por mais tudo. A vida me impõe a resiliência e eu a aceito, mas as vezes e dura pouco, eu quero  chuta-la, quero me rebelar, correr contra o vento e m direção ao Por do Sol e ver no que dá.

É isso.

Ouvindo: Leila Pinheiro


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