A Bailarina e Sua Menina. Mais Um Trecho



Minha menina estava ali, deitada, inerte, parecia quase não respirar naquela cama demasiada grande para o seu corpo magro, esguio e com aquela beleza que começa a florescer aos poucos e quando menos se espera é tão grande que hipnotiza todos a sua volta. Ela esta triste, seus olhos denunciam, mas o conceito de dignidade que vem sendo a ela imposto desde sempre, a impede de debulhar-se em lágrimas. Elas descem frias, quase sem emoção além da raiva surda que sente por um motivo que para além do trivial, beira o insano. Queria dançar para a minha menina e acalma-la com meus movimentos, mas ela nem se lembra que em sua também imensa penteadeira, estou a um toque de suas mãos.

Bem, me cabe explicar a tristeza da minha menina: Batatas! Por mais de uma vez, minha menina já disse a sua mãe e seu pai que detesta batatas e ainda sim, volta e meia lhe obrigam a comer, pois segundo o seu pai, o que se coloca na mesa, deve ser comido sem maiores questionamentos. A minha menina não é dado o direito de escolha e ela simplesmente empurra garganta a baixo aquelas batatas besuntadas por queijo e especiarias que fazem a delicia de muita gente e a sua tortura.

Enquanto come, ela reflete. Do alto de seus 12 anos e claro, com toda a confusão de pensamentos que a sua pequena cabecinha recoberta por um campo de trigo em forma de cabelos pode estar sujeito, ela reflete. Por que a obrigação de comer batatas quando existem outras opções a mesa? Por que seu pai, um bom homem em linhas gerais, lhe oprime com batatas? Ele que despertou seu amor precoce pela ópera, que lhe traz bombons, logo ele, seu herói... Ela come as batatas sob o olhar severo e observador de seu pai que parece lhe ver até a alma. Sua avó, aquela senhora simpática e ainda tão linda, que dois anos atrás deu-me como presente para ela, para minha menina e que um dia, foi ela mesma minha menina, tenta interceder junto ao filho. Voto vencido.

Minha menina vai tomando contato com um conceito que eu já percebo que não lhe é querido agora e não lhe será querido no futuro, o conceito da autoridade. Não que eu ache que minha menina será uma anarquista, nada disso, mas tal qual sua avó, ela não suporta uma ordem que não venha acompanhada de uma explicação. Comer batatas apenas porque estão na mesa? Como assim? Seu intimo queria vomita-las bem ali, mas ela sabe bem as consequências que tal ato acarretariam e decide pelo silêncio acompanhado da raiva.

Ao terminar, percebe que a sobremesa é um enorme pudim de leite, sua sobremesa favorita e pura e simplesmente declina de come-lo. Se há de haver sofrimento, que seja por inteiro, ao comer e ao decidir não comer. Curiosamente seu pai não lhe obriga a comer o pudim e isso a enraivece ao mesmo tempo que intriga. Como foi ensinada, polidamente pede licença e sai da mesa direto para a sua tão grande cama que mais parece um relvado macio por onde ela pode até correr se quiser. E chora. De forma silente, de forma fria como eu já disse, ela chora.

Mas esperem! Ela levantou-se e vem em direção a penteadeira. Sua avó havia lhe dito que toda vez que ela estivesse triste, deveria me ver dançando. E ela vem. Com sua costumeira delicadeza, ela abre a caixa e eu me levanto e danço. Como eu queria poder dizer para minha menina que estou ali com ela, sempre, e que acompanhei seu pequeno (para mim, para ela, algo abissal) sofrimento.

Eu vou dançar para a minha menina. Eu vou alegra-la. A minha música a acalma, meus movimentos a deixam fascinada. Eu sou a guardiã do seu sorriso. Eu sou a bailarina que tem uma menina. Por favor, me desculpem, mas preciso ir dançar para ela...

É isso.

Ouvindo: Maria Callas

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