Cecilia, Minha Cecilia
Em meio as minhas angustias que do nada me cercam e também do nada se rendem e se vão eu busco consolo em Cecilia e seus versos. Minhas tristezas se aquietam quando Cecilia surge e seus versos ressoam. Não que seja Cecilia toda cura para todo mal e sinceramente eu desconfiaria e desconfio e sempre desconfiarei de qualquer panaceia que se proponha a tudo curar e todo mal livrar, isso não existe. Mas os versos de Cecilia me trazem a calma e a reflexão tão necessária e na verdade muitas vezes trazem apenas a quietude das palavras belamente encadeadas em versos tão certeiros quanto faceiros. A Cecilia, assim como a Florbela e também a Cora Coralina, eu devo o pouco de sanidade que tenho.
Mulheres, sempre elas. Sempre tão certas em suas palavras seja na prosa e verso seja no conto que conta a história mais bela que se pode imaginar ou que torna a dura realidade em algo palatável ou faz a fantasia ser a realidade maios palpável naquele momento de leitura, não importa Sempre são elas a me socorrer com suas palavras. Sejam as "inglesinhas" Mary Shalley e Jane Austen, seja Florbela Espanca, Seja Ligia Fagundes Teles e seus escritos densos. Virginia Woolf e seu flerte eterno com a depressão que lhe ceifou a vida ainda sim me ensinou a olhar suas palavras quase sempre duras e tristes como reflexos de uma arte muito particular que precisa ser apreciada pois é embebida em uma sensibilidade única e muitas vezes escondida mas que se torna tão latente a quem realmente a busca.
Mas voltando a minha Cecilia, minha escritora mais admirada e amada, a sua construção do verso é o que me encanta. Jamais foi presa a rótulos ou movimentos embora alguns críticos a considerem uma Modernista enquanto eu modestamente a considero apenas uma estupenda escritora e creio ser isso que a faz ser tão fascinante, pois quando um escritor, um artista em geral, seja cantores, pintores ou cineastas vai além das etiquetas que tanto público quanto crítica insistem em lhes colocar durante toda sua carreira, eles se tornam plenos e acima de qualquer rotulo que venha a tentar lhes apequenar.
Cecilia a quem devoto minha admiração a quem chamo de minha, pois me aposso de sua obra e guardo em meu coração nos deixou entre tantas belezas, tantas maravilhas, esta pequena obra prima de poucos e tão profundos versos:
Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Ouvindo: Maria Callas
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