Companheiro Elbio

 

Duvido que o Sr. Elbio Fernandez Mera fosse de esquerda, mas chamava a todos em sua imobiliária de "Companheiro". E o "Companheiro Elbio" ensinou-me muito — mas muito mesmo — nesta minha caminhada de vinte anos no mercado imobiliário. Sempre sério e elegantemente trajado, o Sr. Elbio exigia que seus corretores estivessem sempre de crachá, para que, nos plantões, os clientes pudessem ver o nome de quem os atendia e para que, quando ele cruzasse os corredores com algum colaborador, soubesse imediatamente como chamá-lo: "Companheiro...", seguido pelo nome da pessoa.

Momentos que não esqueço, nos quais o Companheiro Elbio se fez presente:

Lançamento do Olimpique Chácara Santo Antônio (Gafisa): Eu ainda tinha muito a aprender e estava com um cliente de imenso potencial, mas não achava um gerente para me auxiliar. Do nada, aparece o Sr. Elbio, chama-me de lado e pergunta por que estou correndo de um lado para o outro. Explico a situação e ele, com aquele sotaque uruguaio bem pronunciado, diz: "Calma. O cliente não pode perceber sua ansiedade. Fique tranquilo, ele vai comprar". Dito isso, escolheu ele mesmo um gerente para me ajudar. O resultado? Duas unidades vendidas naquele dia.

Elevador da sede da Fernandez Mera: Entramos eu e meu gerente, e logo em seguida o Sr. Elbio. "Companheiros, indo almoçar? Onde irão?". Falamos o nome de um restaurante caríssimo e "na moda" na época, e ele nos disse: "Companheiros, tem um restaurante aqui no início da Nove de Julho, vegetariano, mas com uma comida deliciosa; custa R$ 15,00. Deviam conhecer. Dinheiro não aceita desaforo!". Fiquei perplexo: um homem milionário indicando um restaurante de 15 reais — que depois descobrimos ser fantástico e onde, de fato, cruzamos com ele várias vezes. Uma lição inestimável.

Empreendimento Gramercy Park, Alphaville: Domingo, nove da manhã. Logo após o sorteio, o Sr. Elbio encosta o carro, entra e pede para um corretor apresentar a maquete com informações completas. Não perdi a oportunidade: reuni os corretores e fiz a melhor apresentação da minha vida. Ao final, ele me chamou de lado, parabenizou-me e disse: "Companheiro Miranda, você vai longe; apenas use o crachá, por favor". Eu estava sem crachá e, ainda assim, ele sabia o meu nome! Que emoção senti naquele dia.

Empreendimento Boulevard Tamboré: Eu tinha acabado de sair da Fernandez para a Lopes. O meeting era para ambas as imobiliárias. Dei de frente com o Sr. Elbio e ele me viu com o crachá da concorrente. Parou na minha frente e, sem dizer uma palavra, tirou o meu crachá, colocou-o no bolso e disse: "Quando o senhor voltar para casa, eu lhe devolvo este crachá". Aquele foi o meu ápice profissional. Nada mais importava: se eu ia vender muito ou dominar o mundo, tanto faz. O cara que eu mais admirava estava me dizendo que a casa dele ainda era a minha. Não voltei, mas nunca esquecerei.

O Sr. Elbio formou uma geração de profissionais deste mercado que eu amo. Mais do que um ícone, foi um exemplo — o homem para quem todos olhavam durante a tempestade, esperando que ele conduzisse o barco em segurança.

Sr. Elbio, descanse em paz e muito obrigado por tudo!

É isso.

Ouvindo: Yo Yo Ma

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