Minha Mãe Me Ensinou a Falar Toillete
Aprendi a ler e escrever com 4 anos. Foi minha mãe quem me ensinou para que eu pudesse aguentar as agruras de uma internação na ala infantil de um hospital. Do momento em que eu aprendi sai lendo loucamente e escrevendo meus garranchos sem sentido (os considero sem sentido até hoje, raramente escrevo algo que presta). De qualquer forma não sei exatamente por qual motivo, me lembrei que nestes dias na Santa Casa de Guarulhos, minha mãe me ensinou também uma palavra que me persegue até hoje e quem me conhece sabe que a uso com uma frequência razoável: Toillete.
Minha mãe me disse exatamente assim: Quando você quiser ir fazer suas necessidades fisiológicas (porra mãe, eu tinha quatro anos e aprendi a falar fisiológicas???) chama a enfermeira e diga que precisa ir ao Toillete. Desde então toda vez que preciso fazer as tais necessidades e não sei onde fica o local, eu pergunto: "Por favor, onde fica o toillete?" Quem me conhece e sabe do meu comportamento absolutamente brutal na maior parte do tempo quando ouve algo assim, se espanta! Dai eu digo "Preciso cagar, onde mais eu iria?" E tudo volta ao normal.
Minha mãe me ensinou modos de ser completamente adversos aos que tenho. Tentou me preparar para ser educado, cortês e todas essas convenções que eu até tento seguir mas falho miseravelmente. Acho que ela sabia que me tornaria alguém extremamente desbocado e tentou amenizar ensinando algumas coisas que ao seu ver amenizariam os problemas que minha boca grande fatalmente me colocariam.
Então, ela me ensinou a falar toillete, me ensinou modos a mesa (esqueci todos e mal sei comer de garfo e faca, sozinho só como de colher mesmo), me ensinou a pedir sempre por favor, e a receber não sem me revoltar. Ela me ensinou muitas coisas, mas nunca consigo colocar em prática a grande maioria, sempre meus instintos falam mais alto. Toillete pelo menos, eu nunca abri mão. Sempre falo.
Sinto falta da minha mãe. De saber que ela estava neste planetinha, ainda que longe de mim. Sinto falta de quando criança nossas idas a casa da minha madrinha. Ela me contava coisas, me ensinava palavras aleatórias em inglês, cantava comigo. Ela pegava uma linha de ônibus executivo bem mais cara que a tradicional só pra me fazer feliz. Minha mãe a enfermeira que trabalha de faxineira nas suas folgas pra me comprar coisas que ela julgava importante. A mulher que me ensinou a falar toilette.
Não sei de onde vem tanta brutalidade que eu levo no peito, essa vontade de quebrar tudo com minhas próprias mãos até não sobrar mais nada ao meu redor. Não sei porque ouço pessoas dando risadas como agora neste exato momento e tenho vontade de esgana-las porque ninguém é feliz assim o tempo todo e eu sei que tudo é fingimento. Mas eu sei porque eu não faço nada disso. Porque minha mãe suavizou meus modos, ela sabia o animalzinho que tinha e tratou de me domesticar da melhor forma. Eu sou a brutalidade em pessoa mas minha mãe me fez ser minimamente palatável.
É isso.
Ouvindo: Guns N' Roses
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