Sobre Secos & Molhados e Minha Mãe

 

Depois que minha mãe morreu no final do ano passado, não param de vir a tona memórias deliciosas para mim sobre Dona Alexandrina. Uma delas é sobre a banda Secos & Molhados, uma das expressões musicais mais incríveis que o mundo, não apenas o Brasil, já teve. Acho que eu deveria ter uns 10, 11 anos, quando tivemos uma conversa, eu e minha mãe sobre os caras.

Minha mãe tinha em casa um arsenal de discos bacanas e eu tinha um vitrolinha que não lembro exatamente de quem ganhei que ela me incentivava a usar ouvindo os tais discos. Ouvi muita música Cristã, muito rock e muita, mas muita mpb. E também música brega. Minha mãe ouvia de tudo e algo que claramente herdei dela foi essa pluralidade.

Nunca tive muitos amigos. Meus amigos eram meus livros e os discos da minha mãe e um dia eu descobri para minha total estupefação, Secos & Molhados. O que era aquilo? Aqueles caras todos eles pintados, maquiados, com roupas andróginas e comportamento idem e com músicas que confesso, não entedia muito bem as letras, mas intuía falarem de coisas sérias e importantes. Comecei a ouvir direto, o tempo todo. Quando Ney cantava "O Vira" eu saia dançando like a louco pela casa e minha mãe estando sóbria ou bêbeda, aplaudia e as vezes, dançava junto.

Um dia, uma época em que morávamos em um quintal que tinha 3 casas, o homem que morava em uma das casas me viu no quintal da minha dançando ao som de Secos. Chamou minha mãe na mesma hora e disse em alto e bom som que aqueles "viados" eram uns degenerados que iam me fazer virar "viados" como eles. Lembro perfeitamente de minha mãe me colocar para dentro de casa não sem antes agradecer o "conselho" do vizinho e me chamar para conversar.

Nesta conversa, ele me esclareceu de forma absolutamente didática o que seria um "viado" e me assegurou que antes de mais nada não era possível ao homem afirmar que os caras do Secos eram viados pois não havia dormido com nenhum deles. Depois ela me disse que caso um deles ou os três fossem, não haveria mal algum nisso pois a vida privada deles não nos dizia respeito e ser viado não era crime algum, ao contrário, nas palavras dela, era preciso ser muito homem para ser viado no Brasil.

Hoje sei que ela fala sobre ditadura, sobre preconceito e tudo o mais, mas o que achei fantástico naquele dia foi ela ter me incentivado a ser como eu era, a gostar do que eu quisesse gostar e principalmente me dizer que a vida não era feita de sexo e sim de felicidade e a felicidade se encontrava nas coisas mais pequenas como dançar ao som do Secos.

Dona Alexandrina era foda! Fiquei ouvindo o disco na vitrolinha o quanto eu quis e ela dançou comigo, "O Vira" várias vezes. Minha mãe não era um poço de intelectualidade, não teve tempo na vida para isso, precisava criar a mim e minhas irmãs, mas minha mãe era sábia a sua maneira, muito sábia e hoje reconheço isso. Ela despertou em mim o gosto musical, o gosto literário, me ensinou a gostar de dança (embora curiosamente não tenha me permitido fazer Ballet Clássico) e me ensinou principalmente a ser eu mesmo.

Sim, ela tinha seus problemas principalmente com o álcool, mas e dai? Era uma mulher que não media esforços para me ver bem e mesmo que eu ache que Fernanda minha irmã que tão cedo partiu tinha sua preferência, sei que ela me amava loucamente também.

Feliz o filho que tinha uma mãe que dançava ao som de Secos &Molhado com ele.

É isso.

Ouvindo? Secos & Molhados



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