Vento Adverso
Um dia ele acordou e percebeu que a humanidade estava usando máscaras. Todas as pessoas as usavam, como se fosse um uniforme de cores e texturas variadas, sempre escondendo a maior parte do rosto, sempre escondendo o nariz, o queixo e já não era possível saber quem tinha covinhas ou deixava de ter. O sorriso já tão em falta ficou ainda mais escasso e "ler" as pessoas por suas expressões se tornou árdua tarefa.
A sensação de sufoco causada pelas máscaras em alguns parecia não afetar tanto a outras pessoas que na verdade pareciam sentir-se muito bem escondendo suas feições. A máscara foi lentamente virando um acessório "fashion" combinando com roupas e calçados e provando o poder quase ilimitado de adaptação do ser humano. Ele percebeu então que a vida foi seguindo e apesar do medo inicial, aos poucos as pessoas retornaram a seus afazeres, agora de máscaras, mas sem a angústia que elas causaram em um primeiro momento.
As máscaras escancararam de certa forma os medos e as dores de sermos humanos e frágeis e mesmo que sejamos adaptáveis ao extremo, elas nos lembraram que somos também finitos, mortais, pouco mais que um sopro que se esvai ao menor vento adverso e ventos adversos sopram o tempo todo. Talvez esta readaptação tão rápida, essa volta aos afazeres normais (ainda que essenciais), seja uma resposta inconsciente a nossa própria finitude, uma recusa a estagnação proposta por um agente externo invisível aos nossos olhos mas que mostra a olhos vistos todo seu poder de destruição.
O vento adverso que sopra sobre nossa finitude e pode nos aniquilar como espécie não se propõe a nos ensinar nada, somos nós que devemos tirar as nossas próprias conclusões e lições de uma parte da história que jamais imaginamos viver, não por falta de criatividade mas por pura arrogância calcada em nosso suposto poder de resolvermos de forma satisfatória todas as nossas questões.
Bastou um vento adverso, uma lufada de ar quente inesperada e nada refrescante para mostrar quem somos e desnudar nossos medos escondidos agora por trás de máscaras cada vez mais estilosas. Temos "estilo" para lidar com a dor causada por um agente inimigo invisível e que não se importa com nosso sofrimento mas nos falta a "finesse" para que a real empatia floresça nos corações sendo ela, a empatia, tão necessárias em dias como os que vivemos hoje.
Um vento adverso nos empurra rumo ao abismo da morte. Tantos já caíram e tantos mais dançaram bem na ponta deste mesmo abismo mas recuaram e conseguiram voltar ao platô seguro da vida que segue sem nenhuma certeza de por quanto tempo ela ainda será segura. Esse vento vai passar mas outros virão. Tem sido assim por toda a história da humanidade e não será agora que vai mudar. A vida, sempre tão frágil que nos exige malabarismos cada vez mais sagazes para que nos adaptemos as adversidades trará outros ventos. Talvez alguns sejam brisas suaves a nos reconfortar, mas não nos enganemos: Serão brisas que precedem o furacão, o grande vento adverso que em algum momento nos consumirá. A vida é feita antes de mais anda, de morte.
É isso
Ouvindo: Pie Jesu com Celtics Womans
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