Caligrafias Parecidas
Quando Emicida diz que ainda se lembra de sua mãe limpando o chão desses boys cuzão, penso ferozmente porque eu nunca escrevi essa frase. Pobre Dona Alexandrina, limpaza vários e vários apês com um monte de boys cuzões e depois ia cuidar de pacientes, pois era enfermeira de profissão. Já narrei aqui algumas vezes lembrar disso sempre me é caro, muito caro.
Lidar com uma criança como eu fui... Deus escolheu bem pra quem eu iria, porque a maioria das pessoas certamente não me aguentariam nem por dois dias, que dirá uma vida. Em que pese Fernanda ter sido a sua preferida, fui seu primogênito e ela não mediu esforços. Algumas pessoas a acusaram quando eu simplesmente abandonei a escola com menos de 10 anos. Ms e dai? Ela me alfabetizou aos 4 anos. Eu sabia ler e escrever aos 4 anos porque ela me ensinou e nem professora a pobre era. Cheguei na escola e achava (embora não soubesse concatenar o pensamento), todas as crianças retardadas. Ficavam fazendo bolinhas e traços e eu querendo escrever e ler. Pra todas as crianças e a maioria das professoras, retardado era eu.
As nossas mãos, de minha mãe e eu, encaixavam certo, muito certo. Eramos muito iguais, hoje eu vejo. Se não me tornei um alcoolatra, me tornei alguém capaz de entender porque pessoas se tornam alcoolatras e não julga-las. Ela perdeu a favorita dela, como não se refugiar fosse no que fosse? Ela escolheu o álcool, paciência. Eu escolhi os livros. Ainda hoje ando com eles, na mochila, no carro, em casa, livros me acompanham. Leio trechos, leio-os inteiros, decoro minhas partes favoritas da maioria deles. Livros me consolam assim como a bebifa consola dona Alexandrina. Vício é vício, hoje sei disso.
Minha mãe me defendia de absolutamente tudo. Estando eu errado ou certo e logo aprendi que quando estava certo sua defesa era mais combativa, quando eu estava errado era meio protocolar mesmo. Ela me ensinou a gostar de música boa, a nunca julgar quem quer que fosse independente do motivo, porque dizia ela, todos tem os seus motivos.
Como diz também Emicida na canção abaixo, aprendi a agradecer até os defeitos dela, que na verdade são os meus. Somos muito iguais, muito mesmo.
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