E Então, Vanusa Se Foi


Há virtude na morte quando ela traz um necessário descanso. Vanusa certamente estava cansada. Ninguém é linda, loira, feminista (quando mal se sabia o que significava ser feminista), canta excepcionalmente bem entre tantas outras qualidades e não se cansa em determinado momento. Vanusa sofria de demência e que ironia alguém tão articulada sofrer de algo assim no fim da vida. Estava velha, é fato, mas para seus admiradores era ainda a espetacular intérprete e a mulher impecavelmente vestida que em minha infância me fazia suspirar tanto pela voz e potente interpretação quando pela beleza indisfarçável.

Vanusa partir é uma tragédia para uma música brasileira já combalida por perdas recentes como a de Belchior, compositor da canção emblema de sua carreira, "Paralelas", entre outros grandes que nos deixaram. Vão ficando apenas esses pobres simulacros de intérpretes que deveriam se envergonhar a cada aparição pública a que se expõe. Vanusa não. Era autêntica, brilhante e arrebatava a audiência com sua força embalada em uma doçura vocal desconcertante e contrastante com esta força que vinha lá de dentro de suas entranhas e a punha a cantar não como uma  qualquer, mas como uma diva.

Se por um lado Vanusa não tinha uma voz que pudesse ser comparada tecnicamente a Whitney Houston ou Aretha Franklin ou mesmo Norah Jones com sua interpretação contida e que me faz cia agora enquanto escrevo sobre Vanusa, nossa loira tinha uma interpretação que permitia com que não devesse nada a nenhuma dessas divas pois sua condução vocal fosse no estilo que fosse era sempre emocional e emocionante. Não existiam com Vanusa, interpretações que fossem mornas. Ou ela arrasava, ou arrasava.

Para mim, nada exemplifica mais o que venho dizendo do que sua magnifica, perfeita, catártica, eu diria interpretação de "Comunicação" em um desses festivais de outrora. O público que começou indiferente, distante de Vanusa, veio se achegando, se envolvendo, e terminou cantando junto, aplaudindo de forma inconteste o número apresentado. Veja que esta música é uma fina ironia sobre o consumismo e como ele é incentivado e isso a quase 50 anos. Vanusa coloca credibilidade em cada palavra e a sensualidade quase despretensiosa com a qual brinca com uma fita que se inicia em seu pescoço e termina em suas mãos é impressionante. O contorno perfeito de seus seios revelados com a ausência de sutien em sua vestimenta e como eles chamam menos atenção que sua performance é outro ponto impressionante.


Dificilmente alguém poderá se equiparar a Vanusa. Seu último trabalho, produzido por Zeca Baleiro embora a encontre já com o quadro de demência, o álbum com o singelo e ao mesmo tempo tão forte título de Vanusa Santos Flores, foi um brilhante último ato de tão linda carreira.

Vá em paz, Vanusa! Aqueles que preferem te chamar de a louca do hino, eu apenas lamento tamanha estreiteza de visão. Você foi responsável por momentos incríveis e únicos em nossa música. Obrigado por tudo!

É isso.

Ouvindo; Norah Jones

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