A Criatura que Nunca Foi: Um Diálogo entre Mary Shelley e Jane Austen


Quando Mary Shelley, com 18 anos incompletos, escreveu sua obra-prima, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, ela descreveu não o homem verde com um par de parafusos em suas têmporas, mas um homem com o tom de pele amarelado, incríveis 2,50m de altura e peso proporcional. Frank tinha uma força descomunal, tanto que arrancava árvores do chão com suas imensas raízes como se fossem palitos de dente no queijo. (A comparação "trouxa" é minha, não de Mary, evidentemente).

Frank pulava distâncias absurdas, era praticamente indestrutível em sua fúria e raiva desmedidas. O imaginário popular o descreve ainda como alguém incapaz de falar ou articular ideias, praticamente um zumbi errante pelo mundo. Mary relata em seu livro que ele não apenas conseguia articular perfeitamente suas ideias, como debatê-las com seu criador, Victor. Além de articulado, Frank era um ávido leitor, e Mary o descreve em diferentes oportunidades lendo autores como Goethe, John Milton e — pasmem! — Plutarco. A leitura, se não o redimiu (e eu nunca o vi como um personagem que necessitasse de redenção), ao menos o fez conversar com o homenzinho que o criou de igual para igual.

Seu criador, Victor, curiosamente em momento algum lhe deu um nome. Antes, chamava-o de Ogro, Coisa, Monstro e outros termos menos publicáveis. Enquanto Victor era Frankenstein, a Criatura era o vazio de um batismo que nunca ocorreu; um ser sem identidade formal, a quem o próprio criador não achava digno de possuir um nome. Sendo pouco mais que uma aberração, tanto física quanto visualmente falando, não restava muito mais a ele do que o desprezo de todos que cruzavam o seu caminho. Mas o mais triste, o trágico e, sobretudo, o mais importante para a compreensão do brilhante livro de Mary, é que a Criatura era sem nunca ter sido — por mais paradoxal que esta conclusão seja.

Pode um leitor de Plutarco e Goethe, que compreende os conceitos por trás das ideias de cada um deles, simplesmente não ser? Frank não era. Não era alguém, não tinha alma, era um deslocado. Pretendia-se um Adão moderno, mas era o mais próximo que um anjo caído poderia ser. Desprezado por seu criador, incompreendido por todos sem ao menos ter a chance de se expressar, Frank nunca foi. O seu criador, que o pretendia humano, desprezou-o como um reles subproduto de sua própria loucura.

Mary não edulcorou sua história assim como os roteiristas de Edward Mãos de Tesoura o fizeram ao contar a história do menino criado tal qual um Frankenstein moderno. Não! Ela o fez sofrer, o fez purgar pecados que talvez fossem originalmente dela e sofrer as dores que certamente ela sentia por ter crescido sem mãe, sem referências de amor e carinho em sua primeira infância. Frank é quase um reflexo de si mesma, ainda que em proporções gigantescas. Se Jane Austen, outra inglesa brilhante e também com 18 anos incompletos (o que tem na água da Inglaterra, afinal de contas, para terem tão bons escritores?), escreveu sobre a idealização da figura masculina representada pelo Senhor Darcy em Orgulho e Preconceito — um homem forte e ao mesmo tempo sensível —, Mary escreveu sobre a escória. E não apenas representada pela Criatura, mas sobretudo por Victor, seu criador: vaidoso, arrogante e completamente desmedido em seus propósitos.

Existe um paralelo possível entre Darcy e Frank? Entre Mary e Jane? Obviamente, tirando o talento extremo de ambas com as palavras, nada mais as une, e muito menos aos seus personagens símbolos. Ambas escolheram caminhos opostos para falar sobre a alma dos homens — não a alma masculina especificamente, mas a alma humana. E eu, mero leitor ávido de ambas, identifico-me de forma clara com Frank. Aquele que nunca foi.

Frank tentou ser bom e foi desprezado. Tentou ser justo e foi ridicularizado. Frank tentou e tentou. Até que se cansou e, quando percebeu finalmente que não era, resolveu ser o que dele se esperava. Deixou transbordar sua raiva e seu ódio; resolveu inspirar aqueles que amam o caos. Frank é Tony Soprano e seu pânico de que um dia sua alma se desnude ante todos. Frank é Donald Trump, autocentrado e sem compaixão. Frank é o réquiem para almas tristes, perdidas e destinadas à danação. Uma reza monocórdica, vazia e angustiante.

Darcy é a redenção possível, a beleza bruta e impassível que não se entende como beleza para não se envaidecer. Darcy é uma sinfonia com tons cristalinos executada por violinos majestosos. Darcy é, enfim, o que Frank, em sua lama, ansiava ser, até descobrir que é justamente uma alma que lhe falta. Frank e Darcy são escolhas que os homens fazem diariamente em suas atitudes e posturas. Mary e Jane deveriam ter bustos em todas as cidades do mundo e seus livros deveriam ser leitura obrigatória. Em um mundo perfeito seria assim, mas o mundo em que vivemos é difícil, muitas vezes governado por Victors preocupados apenas com sua própria vaidade.

Obrigado, Mary! Obrigado, Jane! Seus escritos me fazem um homem melhor ao me ajudar a compreender que tanto Frank quanto Darcy habitam em mim, e cabe a mim escolher quem triunfará no final das contas.

É isso.

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