Quem eu Seria? (Se Caso Meu Pai Tivesse Dado As Caras)

 

Dá pra ter saudades de quem não se conhece? Ao menos para mim, dá! Tenho ouvido sistematicamente e de forma quase ininterrupta a nova canção de Felipe Valente, "Cais". A música é um assombro de linda e como toda obra de arte, suscita diferente emoções em diferentes pessoas. Em mim, quando ele fala que a "saudade é como um cais" nossa!!! Ele me definiu! Para mim, é como se eu estivesse permamentemente na ponta de um cais, esperando um barco retornar, esse barco traria meu pai. Mas ele nunca vem, nunca chega e eu bem sei, nunca chegará. Como eu posso ama-lo ao ponto de quere-lo de volta se ele simplesmente me abandonou antes mesmo de olhar para minha cara? Não sei, mas o amo.


Será que eu seria corretor de imóveis se ele tivesse me educado, tivesse estado ao meu lado? Eu poderia ser médico talvez? Ou traficante? Não sei, mas seria outra pessoa, eu acho. Cai na corretagem para não passar fome, então não o que eu poderia ser com a condução do meu pai. A saudade é um cais! Se a saudade é um cais,  a saudade de quem nem se conhece é um cais deserto, desativado, onde nenhum navio aporta ou parte. Fico eu ali, esperando o meu navio. Será que quando eu tiver 60, 70 anos, essa dor passa? 

A duras penas tento consolidar minha tímida tentativa de empreendedorismo. Tento colocar uma imobilíaria em pé com meu sócio e sei que vou conseguir, a duras penascomo disse, mas vou. E dai? Meu pai nem vai saber? Será que ele intuiu que eu seria um fracassado? Um menino anti social que se tornou um adulto anti social e não quis correr o risco de se declarar pai de tal figura? Será que hoje ele mantém o navio lá longe por imaginar que eu não dei tão certo assim (ainda) e não quer correr o risco de ter que se deparar com o que me tornei?

Um dos motivos de eu ter saído da escola de forma tão precoce era a dor de não ter a quem dar os presentes do dia dos pais. Bataram 4 anos para aquilo me corroer de tal forma que decidi que não voltaria nunca mais a ganhar um presente e não ter a quem dar e nunca mais voltei mesmo. Se eu tivesse um pai, teria ficado na escola? Acho que sim, ele me obrigaria. Seria a tal figura masculina. Talvez eu fosse um alguém "mais alguém" do que sou hoje. Na maioria das vezes, na verdade, me sinto ninguém.

Seria eu alguém social? Teria talvez não desenvolvido TDAH? Seria alguém menos briguento, menos animalesco? Eu me sinto sempre no limite entre o minimamente civilizado e o totalmente animalesco. Será que um pai, meu pai, teria me formado alguém melhor, mais encaixado na sociedade? Me contaria histórias e eu as contaria para minha filha? As histórias que contava para minha filha são todas de livros infantis de Max Lucado, nenhuma me foi passada por meu pai porque ele nunca sentou ao lado da minha cama para me contar nada. Deixou padrastos miseráveis e imbecis que não sabiam contar histórias tentarem me educar.

Eu seria mais inteligente que sou? Gostaria mais ou menos de ler? Teria casado com a primeira namorada? (Espero que não, pois não teria conhecido Graziela e isso seria um disperdício). Quem eu seria afinal? Eu não tenho resposta para essa pergunta mas eu tenho a mais absoluta certeza que eu não estaria em um cais, esperando alguém que não conheci e tanto amo. E não me sentiria tão só, com o vento e o cheiro de sal e os olhos sempre marejados. Me sentiria senão amado, ao menos acolhido. 

Não culpo as pessoas por náo gostarem de mim afinal meu pai não gostou. Nem me deu a chance de me apresentar. Ele apenas decidiu não gostar e seguiu firme em sua decisão. As vezes, o mar parece muito mais vasto do que realmente é e mesmo que seja plácido e belo, visto do cais, ele é todo caos e ondas imensas na minha alma. 

Se meu pai fez algo de bom para mim foi me tornar um obstinado em ser o melhor pai que eu pudesse ser. Eu falho, eu erro muito, mas busco sempre acertar com minha filha. Não a quero em um cais me esperando. A quero ao meu lado. Com minha enteada, a mesma coisa. A quero me vendo como alguém que ela possa contar todos os dias de sua vida, não algupém distante e indiferente.

A saudade é um imenso e deserto cais. Nenhum barco aporta nele ou parte. Nenhum sinal de navegação, nem de movimentação de carga. Não tem docas, não tem pessoas, não tem marinheiros. Apenas eu, timído como sempre fui, segurando o choro uns dias, desafogando o peito com lágrimas em outros, resignado na maioria deles.

A saudade é um cais.

É isso

Ouvindo: Felipe Valente

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