A Lata De Cola e o Hino

 

Conheci um menino há muitos anos. Ele era ruivo, com um cabelo que parecia labaredas de fogo e sardas em todo o rosto. Você poderia facilmente chamá-lo de desajustado, já que sua principal atividade era cheirar cola de sapateiro. Vinha de uma família que apenas com muita boa vontade podia ser classificada como tal; estava mais para um amontoado de pessoas igualmente desajustadas — ao menos aos olhos daqueles que acham que família de verdade é aquela que come margarina no café da manhã.

Foguinho, vamos chamá-lo assim, conheceu um grupo de pessoas do qual eu fazia parte. Não tínhamos muito interesse nele; era mais uma curiosidade, um ponto fora da curva da nossa existência e da nossa forma de nos portarmos no mundo. Éramos todos muito "corretinhos" (pasme, até eu) para aquele menino que vivia atracado com uma lata de cola. Criticá-lo era um esporte; fingir-se de bonzinho e piedoso era outro — mas muito menos praticado, já que não rendia boas piadas.

Ele gostava de nossas atividades ao ar livre. Gostava de acampar conosco, mas constantemente era mandado de volta por conta daquela lata. Acho que, no fundo, ele preferiria abandonar aquelas latas repulsivas e ir tomar sorvete conosco aos sábados à noite. Quantas vezes o convidamos para isso? Nenhuma. Já tínhamos que aturá-lo nas tardes de sábado, já que nosso grupo (que às vezes parecia mais um conluio) era pretensamente democrático e acolhedor. Eu disse acolhedor? Hahahahaha!

Ele não tinha pouco dinheiro — esse era eu. Ele não tinha dinheiro algum. Diversas vezes saímos de nossas reuniões e o deixamos para trás; afinal, ele não tinha como nos acompanhar. Lembro-me de, ao menos em duas oportunidades, ver a decepção estampada naqueles olhos constantemente tristes. Havia um rapaz, de rígida formação militar, que — preciso ser sincero — tentou muito ajudá-lo. Hoje penso que, se ele tivesse tido o nosso apoio nesse propósito, talvez tivesse obtido êxito.

Hoje vejo esse pessoal postando suas lindas ações sociais ajudando os que precisam neste mundo convulsionado, e penso que a maturidade chegou. Só isso explica termos deixado à deriva alguém que estava ao nosso lado e que demandaria muito menos esforço para uma ajuda efetiva. Ou talvez seja a velha questão de não termos ligação real com quem não está perto. Entrega-se a ajuda, vira-se as costas e pronto: voltamos para nossas mesas lindamente postas e nossas relações perfeitas, encenadas entre iguais, sem problemas financeiros ou emocionais aparentes.

No fim da história, Foguinho morreu. Com menos de 20 anos, sucumbiu a uma vida dura, sem estrutura e sem direção. Caiu de um trem ao "surfá-lo" ou foi atropelado por um; não lembro ao certo. O fato é que ele estava em seu "refúgio" químico e não demos muita importância à notícia. Apenas comentamos entre nós que aquilo era esperado, já que o Foguinho era "drogado".

Uma coisa eu lembro nitidamente: soubemos da notícia logo após cantarmos que "nós somos os desbravadores, os servos do Rei dos Reis...". Irônico, não? Além de triste, claro. Hoje olho para trás e vejo que me casei, tive uma filha, terei um neto. E o Foguinho? O que poderia ter sido dele se o tivéssemos apoiado de forma mais contundente? Se o nosso acolhimento tivesse sido suficiente para torná-lo um de nós?

Tudo isso porque hoje vi uma foto. Eu estava ao seu lado em um acampamento, uma atividade qualquer. Acho que ele estava feliz naquele dia. Estava conosco, e ele sempre queria estar conosco, embora nem sempre quiséssemos estar com ele. O que me conforta é que Leonardo Gonçalves canta que "Jesus tem Seus olhos sobre os desesperados".

É isso.

Ouvindo: Leonardo Gonçalves

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