Sobre o Documentário "Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime"

 

Não assisto de forma horrorizada a este documentário. Não faço juizo de julgamento, pouco me importa se Elize era prostituta e se Marcos era um "Top Boss" e como um desenrolar de um "Pretty Woman tupiniquim" parte da vida deles tenha sido. Pouco me importa. O documentário traz uma mulher fria e calculista, que matou seu marido a sangue frio e ainda o esquartejou com destreza profissional. Elize é uma assassina, Marcos, um adúltero contumaz. A Netflix e os criadores deste documentário, pura e simplesmente são abutres atrás de lucro fácil. Bom, não tão fácil já que produzir um documentário com o padrão de excelência e da envergadura que este tem, não é fácil. Mas o lucro, há! Este é garantido!

Por que abrutres? Hora, seria ridículo imaginar que um documentário deste é produzido como informação ao público, como utilizade pública. Não existe utilidade pública em dar forma a um crime ediondo. Não existe romance, beleza ou o que quer que seja de nobre em tangibilizar para todos o que só uma pessoa viveu. Quando se trata de um crime, pior ainda quando o autor se coloca como protagonista que sem qualquer resquício de remorso aparente narra o acontecido. Elize não tem nada além de lágrimas que se legítimas não seriam derrubas ali, em frente as lentes do documentarista pra mostrar. Sua voz é monocórdica, raramente tem emoção e quando tem, ela esta falando em como foi injustiçada por Marcos e pela vida.

Não que Marcos fosse uma flor. Sou homem, sei muito bem como um homem pode humilhar e ofender uma mulher sem pensar duas vezes. Se pensar então, pode leva-la ao suicídio apenas com palavras. Acredito na rotina de humilhações descrita por ela, acredito que ele fosse frio e indiferente aos sentimntos dela mas jamais vou acreditar que ele "mereceu" morrer, ainda mais da forma em que foi assassinado. Não existe justificativa possível para o que houve com Marcos, exceto a completa falta de controle de Elize.

O que me incomoda no documentário não é de forma alguma a história ou os fatos por trás dela. Me incomoda é a intenção por trás de todos os participantes. Ok, documentários como este são até comuns, principalmente na Gringa, mas ainda sim, não se justificam, ao menos para mim. Temos Elize, que certamente precisará de $$ para reconstruir sua vida ao término de sua pena, temos a Netflix obviamente lucrando com a exibição em sua plataforma e os documentaristas que não obstante se achem e até sejam em certa medida artistas, também lucrarão horrores com a exibição.

Porém, temos do outro lado a filha do casal e a família de Marcos. Vemos no desenrolar do documentário que a tia de Elize a recebe em sua primeira saída e a perdoa automáticamente do crime cometido. Somos também informados que ela viajava do interior do Paraná até o interior de São Paulo para visitar a sobrinha (os pais de Elize já são mortos), ou seja, se a tia da assassina a perdoa e a ama, o que dizer dos pais de Marcos, e de sua filha? Deveriam eles serem submetidos a este escrutínio público? E uso a palavra escrutínio porque o documentário é minuncioso e escarafuncha todos os detalhes e se por um lado essa é sua maior virtude, por outro expõe de forma definitiva todos os outros envolvidos nesta sórdida desdita.

Creio que Elize deveria ter poupado sua filha de tudo isso. Mas ela segue apenas um padrão. Não poupou da primeira vez ao tirar a vida do próprio pai da criança, não pouparia agora ao tentar de alguma forma justificar suas injustificáveis ações. Afinal, nada que Elize diga poderá servir de desculpa para o fato de que ela poderia a qualquer momento ter se separado de seu marido e começado uma nova vida. Ela foi e continua sendo fria, sem qualquer traço de genuína emoção.

Não escrevo no entanto este post para julgar e sim para me perguntar e lançar a provocação de porq que assistimos conteúdo deste tipo. De onde vem esta curiosidade que nos move a querer saber sobre assuntos que deveriam ficar longe daquelas pessoas que não fazem parte dos acontecimentos. Por que queremos saber, queremos entender motivações que não são nossas. Tudo isso me intriga.

Que elize encontre a paz interior e que sua filha possa crescer poupada de toda dor e sofrimento que for possível lhe poupar. Que os familiares de Marcos também encontrem a paz e que a vida siga para todos da melhor forma possível se é que existe alguma forma que possa ser chamada de "melhor".

É isso.

Ouvindo: Coldplay

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