Drunk Post

 

Tenho este blog a quase 10 anos ou talvez um pouco mais, acho que mais, não lembro. Nunca, nunca mesmo escrevi nem perto de estar embriagado já que sou, ou era contra bebidas. Sim, gosto de Whisky, acho uma bebida classuda e tals, mas Whisky, não White Horse e congeneres. Curto um bom vinho, mas uma taça sempre me bastou.  Na verdade até cometer a cagada contra mim mesmo de virar corretor de imóveis eu jamais tinha bebido uma gota sequer.  Mas ainda não entendo quem bebe demais e provavelmente nunca entenderei, a menos que me lance em algum experimento e no meio dele me torne um alcoolatra.

Mas hoje e especificamente hoje, estou escrevendo sob efeitos do álcool. Na verdade a única coisa alcoolica aqui em casa que havia, uma champagne fechada a mega gelada a meses aqui, esperando para ser aberta. Hoje abri e tomei e agora escrevo. Tomei inteira, direto no gargalo. Para aplacar a dor. Não deu certo. Dor se cura, ao menos no meu caso, escrevendo, lendo, ouvindo músicas. A bebida me deixou apenas chorão. Mas vamos lá.

Eu tinha 8 para 9 anos e minha irmã Fernanda 2 para 3. Eu tive Meningite. Uma doença foda, muito foda.  Havia um surto no estado de São Paulo. Fui levado para o Hospital Emilio Ribas de referência após passar pela Santa Casa de Guarulhos. Os Médicos foram claros com minha mãe. Se eu sobrevivesse, ficaria cego ou surdo, provavelmente os dois mas o mais provável é que eu morresse em poucos dias. Bom, se estou escrevendo aqui e ouvindo música e consigo visualizar a tela do notebook, fica claro que sobrevivi. Que merda!

Além do mundo ser obrigado a ter o desprazer de minha presença perambulando pela face da Terra, acabei infectando minha irmã. Ela, logo ela, morreu. Aqueles lindos cabeos que lembravam campos de trigo se foram tão cedo. Sua voz me chamando de Davizinho cessou e nunca mais fui plenamente feliz. Parei de ir a escola, virei uma criança triste, jogada pelos  cantos com medo do mundo, tímido e sem muito rumo. Minha mãe se tornou uma alcoolatra inveterada atingida pela perda da filha que mais amava. 

A mim, restou a culpa (merecida) de ter sido o vetor de infecção de minha amada irmã. Não passa um dia em minha vida sem que eu me lembre de sua voz repleta de felicidade quando eu chegava da escola e ia correndo abraça-la para brincarmos. Não tem um dia que não me lembre de vê-la tontinha de sono indo dormir e seu berço, ao lado da minha cama permitia que dormissemos de mãos dadas. Eu acoradava e antes de mais nada, a beijava. Eu ia para escola pensando em voltar para estar com ela. Eu a matei.

Nada me aplaca essa dor. Não existe música que eu ouça, livro que eu leia, não existe neto que eu aguarde, filha que eu tenha, nada, nada me traz a paz que eu tinha ao ouvir a sua voz e ver os seus cabelos loiros, lindos, não sem cor e sem vida como os meus, aqueles olhos tão belos e expressivos e o seu sorriso. Há que sorriso! Antes, quando eu achava que ai para o céu, tinha a esperança de reencontra-la por la. Hoje eu sei que meu destino esta selado e não é ao lado dos que vão para lá, mas espero, álias, eu tenho certeza, que ela estará lá. Sou feliz com essa esperança e ela me conforta.

Sinto muita tristeza por minha mãe ter se tornado alcoolatra e no fundo tenho que conviver com essa culpa também, uma vez que se eu fui o vetor de tudo, o alcoolismo dela, que acreditem, era uma pessoa tão inteligente e tão cheia de vida que me ensinou tanto, é também culpa minha. Não consegui fazer nada que preste em minha vida, a não ser, Rafaela. Mas hoje ela tem a vida dela e tem outra vida dentro dela e eu espero com todas as minhas forças que este meu neto que ela espera seja fonte de felicidade e uma criança saudável e feliz.

No fim beber não me fez esquecer, apenas aguçou as lembranças que tenho de Fernanda. Da sua voz, seu sorriso e tudo o mais. Plus, lembrei-me hoje que dormiamos de mãos dadas. Tenho plena certeza que se eu não estragasse tudo, seriíamos hoje melhores amigos, embora Fernanda certamente estivesse destinada a grandes coisas, mujito maiores do que a minha mediocridade pode supor. Talve ela fosse ocupada demais para mim mas eu a admiraria do meu canto, feliz com seu sucesso, é isso que os irmãos fazem.

Eu não culpo ninguém além de mim mesmo por sua morte mas acho que a vida é curiosa e tem um senso de humor no mínimo irônico porque não me parece justo que um bosta como eu permaneça vivo ao passo que minha irmã, que certamente seria alguém na vida esteja aguarando a volta de Jesus em seu soninho e eu nem possa estar ao seu lado de mãos dadas.

Não há um dia que não me lembre de você, Fernanda. Existem dias que meu coração esta em paz e lembro com carinho, me pego sorrindo ao lembrar do seu sorriso. Em outros dias como hoje, tudo que eu queria era dormir e não mais acordar, sonhar com você até o fim de um sono longo, um sonho bom onde poderíamos já adultos conversar, contar do dia um do outro. Eu sinto sua falta. Eu choro por você. Eu te amo e nunca pude dizer isso de forma madura, sentado ao seu lado comento uma lasanha, tomando coca-cola. Nem pude te ensinar a torcer pelo Santos, nem pude ir a igreja com você, nem pude ouvir as músicas que gosto com você.

Sei que não gostaria de me ver triste ou chorando mas as vezes e em dias como hoje especificamente, eu lamento de forma amarga a sua falta. Do que adianta tão belas músicas sem você para ouvir comigo? Do que adianta tantos livros que eu li se não posso comenta-los com você? Estou bebado, que vergonha! Mas lúcido o suficiente para saber do meu amor você. 

Dorme em paz, Jesus em breve vem te buscar. Seu destino é com Ele, ao lado Dele e de boas pessoas, apenas boas pessoas. Quanto a mim, não se preocupe, não acredio na danação eterna. Vou queimar um pouco e depois serei nada, como sou  hoje, nada! Tchau, minha irmã. Venha me visitar em sonhos, se possível. Acalme meu coração.

É isso.

Ouvindo: Steven Curtis Chapman

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