Medo Da Insanidade

 

Não tenho medo de ser infectado pela Covid-19. Ter um cancer não me assusta, tampouco a possibilidade de ter um infarto seja ele fulminante ou não. Convivo com a Diabetes, então as intercorrências que dela advém me são familiares. Perder uma perna ou um braço? Seria triste mas não me assusta. Na vida, só o que me assusta quando penso em males que podem me atingir é ficar insano. Isso me faz cagar de medo, de verdade.

Alguns que me conhecem dirão que só posso estar brincando, uma vez que insano já sou, mas eu falo da insanidade diagnosticada, aquela que te faz perder a razão, o raciocínio lógico, te faz perder a eira e a beira. Aquela em que a pessoa vai definhando a vista de todos com atitudes cada vez mais incoerentes e perturbadoras a ponto de ou ser internado ou ir viver nas ruas como um indigente que espera pela morte para ser enterrado como tal.

Sim, ainda me resta alguma razão que me permite conduzir minha vida de forma minimamente "normal". Mas ao me olhar no espelho ultimamente e encarar quem e como eu sou, sinto que minha sanidade esta se esvaindo e não é de forma alguma uma forma poética de colocar as coisas. Eu me sinto cada dia um pouco mais insano e me desconectando da dita normalidade que rege o mundo.

Viver tem me pesado e não é pouco. Eu poderia inventar mil e uma teorias para justificar porque a vidfa tem me pesado mas a verdade é que eu mesmo sou o responsável por este peso, por este martelo que sinto golpeando diariamente meu peito de forma incessante. A dor de sentir-se desconectado de quase tudo que me é caro é um preço a pagar por uma vida de autossuficiência  e desdem tanto com a opinião quanto com os sentimentos dos que me cercam, sempre fundado em mninhas próprias convicções que certas ou não não são toda cura para todo mal como sempre imaginei.

Neste momento em que a vida parece escura e sem brilho algum me vem uma música (músicas sempre vem em minha mente e sempre virão enquanto um minimo de sanidade houver por aqui)



Gosto especialmente da parte em que ela diz que Ele fez tantas coisas e eu nenhuma. Que ele devolve a visão aos cegos, viu o lado escuro do inferno e voltou, enfim, todos os feitos do Eterno que são tão banais em certo sentido para Ele e absolutamente impossíveis para mim. Ainda sim, na maior parte de minha existência apenas minhas opiniões tem valor e agora um estilo de vida que sempre me pareceu absolutamente correto para se viver cobra seu preço. A vida vai se esvaindo, a sanidade fugindo e o que resta é apenas um retrato cada vez mais amarelado pelo tempo.

Claro que tudo seria mais simples se eu pensasse menos, se eu me angustiasse menos, mas isso é obviamente impossível para mim.  Minha mente gira absorta em todos os tipos de pensamentos que vem ao mesmo tempo e embaralham-se  tornando o ato de raciocinar quase que uma tortura como se eu tivesse que percorrer diversos caminhos ao mesmo tempo o que é claramente impossível.

Temo terminar meus dias como um andarilho sem rumo, sem foco, sem nada além das pernas que me levam por caminhos desconhecidos e desimportantes uma vez que não chegarei a lugar algum. Vivendo da caridade de alguem que me de um pão ou eventualmente um pedaço de lasanha (perder a sanidade tudo bem, mas lasanha eu sempre vou gostar). A vida assim não é vida é um simples dormir e acordar aguardando o pior.

Embora a insanidade tenha o lado positivo de tornar o insano um ser que não sabe o que faz ou pensa, uma vez que não existe conexão com a lógica como se ele fosse uma criança que crescida e que não entende mais nada, existe o lado negativo de que certamente quase todas as atitudes que eu tomar como um insano vão incomodar a todos. Sim, hoje eu já incomodo a boa parte da humanidade que tem o desprazer de conviver comido, mas alguns ainda gostam  de me ter ao lado, embora eu desconfie que sejam bem, bem poucos.

Um dos principais fatores que me fazem sentir que caminho para a insanidade são meus textos. Sempre foram ruim mas tinham o mínimo de sentido. Me pego hoje em dia sendo cada vez mais desconexo com as palavras e isso me fere. Me fere porque escrever é tudo o que me resta sempre, é onde posso buscar algum sentido e se alguém ler ok, se não ler ok também desde que eu reconheça que falei sobre o que queria da forma que queria. Nem isso mais esta dando certo.

Meus textos de um tempo para cá são confusos, perdidos e cada paragrafo briga com o anterior e não prepara o próximo sendo que ler o que escrevo acaba se tornando um exercício excruciante de piedade ao escritor que obviamente os poucos que me leem logo pararão de inflirgir a si mesmo tamanha tortura.

Quando pensava em insanidade anos atrás pensava imediatamente em Walt Whitman que para mim sempre escreveu como se nao devesse nada a ninguém principalmente a seus supostos leitores, uma vez que a arte não deve ser feita para o público e sim para o artista, já que pensar a arte como algo que vai agradar a quem a vê é como buscar auto promoção e não o desvencilhar-se de suas emoções e sem medo as colocar em exposição e submetidas ao excrutínio  público.  De qualquer forma alguém que escreveu algo como o que coloco abaixo sob diversas formas de se ver realmente não é uma pessoa de grande sanidade, o que de várias formas me conforta:

                                                                        A UM ESTRANHO

Estranho que passa! Você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem eu procuro, ou aquela a quem eu procuro (isso me vem, como um sonho),
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance fluído, casto, maduro, afeiçoado,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo ou uma menina comigo
Eu comi com você e dormi com você - seu corpo se tornou não apenas seu e não deixou o me corpo somente meu,
Você m,e deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos - você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você - devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou quando acordar sozinho a noite,
Eu devo esperar - não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

Eu tinha a pretensão de me tornar um insano como Walt, mas caminho a passos largos para me tornar um insano digno de um manicomio, nada além disso.

É isso.

Ouvindo: Amy Grant



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