Enquanto o Plantão Não Começa

 

Hoje e desde o final do ano passado, tenho minha própria imobiliária. Tirante o fato de que ser sócio dos governos em todos os níveis de administração é terrível e frustrante pois boa parte do que se ganha vai para orçamentos secretos entre outros absurdos, ser um pequeno empreendedor que quer ficar grande é algo que tem me agradado bastante. A vida é mais corrida, os clientes tem perfil completamente diferente dos cliente de lançamentos mas tudo vai se acertando.

Porém, existem produtos que valem a pena que sejam feitas parcerias pontuais para o seu lançamento e quando isto acontece, eu volto para o plantão de vendas. Estou agora plantonizando (palavra besta!) em um lançamento aqui em Osasco de umas das maiores construtoras do país. Com localização simplesmente privilegiada e um projeto que contempla unidades residências e um "mall" (se a palavra acima é besta, esse americanismo é insuportável!) com 17 lojas localizadas no térreo do empreendimento, é um produto que tem tudo para vender muito bem desde a largada.

Confesso que estar em plantão na posição de corretor é estranho para mim. Sempre cheguei cedo aos meus plantões pois quando coordenador queria me certificar que tudo estivesse em ordem e os corretores fossem expostos ao menor número de intercorrências possíveis durante o dia. Chegar ao plantão e ter que esperar o sorteio sem ter que dar uma preleção logo após é algo que tenho que me acostumar e enquanto o plantão não começa vou colocando as coisas em dia, escrevendo, pensando, vivendoe vivendo me preparando para morrer.

E quando de fato eu morrer, não mais plantões farei, ou qualquer espécie de atendimento, então talvez não seja uma ideia tão ruim ficar aqui esperando o plantão começar e ver o que o dia me reserva. Eu não gostaria de partir tão cedo, na verdade, não gostaria de partir nunca, mas depois de ler "As Intermitências da Morte" de Saramago, a eternidade vista sob a perspectiva pura e simplesmente humana, sem correlação alguma como a recompensa proposta aqueles que seguem qualquer tipo de religião que na eternidade acredita, me pareceu algo absolutamente indesejável, ou seja, ser eterno ´so pode ser itneressante se houver uma força suprema, maior, por trás de tudo.

Meus pensamentos são todos difusos e confusos e nem sei porque me coloquei a pensar sobre morrer ou estar vivo. Morrer é o fim de uma jornada quase sempre maçante e algumas poucas vezes enriquecedora que é estar vivo. Talvez estar aqui neste plantão ainda vazio, sem pessoas em volta, silencioso e frio e sobretudo sabendo que não terei o comando esteja me incomodando um pouco. Como sou exztremamente plástico e me moldo rapidamente as situações, logo terei outras coisas com o que me preocupar.

A vida, ela vai seguindo e a gente vai seguindo por ela e quando seguimos por ela, ainda ta tudo bem, ruim é quando seguimos nela, ou seja, dentro dela, sem o controle das situações apenas reagindo sem poder de antecipar-se. Enquanto eu ainda estiver esperando um plantão começar porque eu quero e não porque não há mais nda que eu possa fazer, ainda vale a pena, minimamente a pena, viver.

Tenho passado por situações que me fogem ao controle pois não dependem de mim. Nestes momentos resiliência e mesmo o simples exercício de aceitar o que não posso mudar me ajudam, mas não muito, Tenho tido muita vontade de sair gritando até ficar rouco, sem voz. Enquanto espero o plantão chegar vou repassando o discurso, os maneirismos, embora maneirismo se não for ligado ao movimento artístico é ligado a gente exagerada, esquizofrênica mesmo, mas tenho os meus, fazer o que?

Enquanto espero o plantão começar, dentro de um aquário completamente envidraçado com toda a visão e uma das principais avenidas de Osasco e todo o seu movimento incessante de carros e pessoas, vejo a pessoas indo e vindo e embora não estejam na sala de jantar, estão preocupadas em nascer e morrer. Me dei conta que eu també,m tenho a mesma preocupação burguesa e, nossa, que lástima!

É isso.

Ouvindo: Pantera

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