Eu Não Sou Divertido
Dizer que eu não sou divertido é chover no molhado. Qualquer um que conviva comigo por 10 minuitos verá que sou tão divertido quanto o enterro de alguém que se ama. Por outro lado, na tentativa de ser minimamente palatável, acabo sendo ferino com as palavras. Em suma: Ou fico em silêncio ou acabo destruindo qualquer chance de convívio com quem quer que seja a qualquer momento.
Eu não gosto de ser divertido, não gosto daquelas piadinhas estilo "A Praça é Nossa". Meu estilo de humor é totalmente Woody Allen e isso me diverte até as tampas. Em outras palavras, como diria Groucho Marx, eu jamais me filiaria a um clube que me aceitasse como sócio. Se uma entidade me aceitar como membro, seja ela qual for, perde imediatamente meu respeito, pois tudo o que eu não desejo é ser o típico cidadão de respeito, o homem distinto. Embora admire Ronnie Von do fundo do meu coração por seus modos gentis e sua conduta de verdadeiro Gentleman, sou como J. Cash, um outsider e tenho profundo orgulho de assim ser.
Essa vida de estar sempre sorrindo, de ser reconhecido como o "mister funny guy" me deixa cansado só de pensar em algo assim. Enquanto as crianças da minha idade queriam ser como J. Quest, eu queria ser o anti-herói, Só me identifiquei com desenhos muito tempo depois, já quase adulto, ou adulto, sei lá, não me lembro ao ver Beavis and Butter Head. E embora não seja um imbecil como ambos são, admiro o foda-se ligado, embora Eric Cartman talvez me defina melhor. Se é para sorrir, que seja a custa da imbecilidade alheia.
Já disse várias vezes que em minha curta carreira escolar eu era o menino esquisito que já entrou na escola sabendo ler e escrever e foi ridicularizado exatamente por este motivo, inclusive por professores. Era o rapazinho sentado com os braços abraçando as pernas e a cabeça baixa enquanto os meninos jogavam bola no pátio.Me vingava lendo mais e sendo muito mais inteligente que todos juntos, o que logo vi ser tão inútil quanto uma geladeira no Alasca.
Se por um lado ler compulsivamente me redimiu, me abriu logo cedo a visão sobre o mundo e sua podridão. Enquanto as crianças viam Sitio do Pica Pau Amarelo, eu já tinho lido Reinações de Narizinho, O Pica Pau Amarelo, Urupês entre outros e achava a adaptação da Globo para a obra de Lobato nada mais que uma bosta rematada. Hoje, quando escuto Nick Cave e suas pirações o faço agradecendo a Deus por não ser como aqueles Fariseus que se regalam ao som da bobagem musical que o mundo em geral e o Brasil em particular produz nos dias de hoje.
Eu não sou divertido. Sou chato, essa é a verdade. Se alguém gosta realmente da minha cia, desconheço. Gosto da cia de algumas pessoas e desfruto da paciência (cada vez menor) que essas pessoas tem comigo e com meu comportamento errático e minhas opiniões que só interessam a mim mesmo e satisfazem apenas o meu ego.
Escrever neste blog que ninguém lê também só acontece por satisfação pessoal. Seja para amar meus escritos (coisa rara) seja para ridicularizar minha escrita tacanha (a maioria esmagadora), gosto de fazer tanto um quanto outro. Minha falta de estilo, meus erros de português, crassos, dignos de analfabetos funcionais me comprazem. Minha verve inexistente que me faz em um momento me auto intitular analfabeto funcional para em seguida usar a palavra "comprazem" é a prova absoluta e total de como posso ser patético seja escrevendo, seja pensando, seja agindo, seja cagando.
Alias, cagar é o que faço de melhor. 5, 6 vezes ao dia e todas com um odor tão fétido que causa engulhos em quem possa estar por perto. Cagar também é uma forma de evidente purificação, ao menos para mim, pois é como se toda a podridão em mim fosse evacuada e embroa ela (a podridão) sempre volte, me consola o fato de que não existe guarida pemamente para ela dentro de mim e talvez em alguns momento, entre uma evacuada e outra, eu possa ser puro justo e bom. Justo já é demais, mas ao menos puro e bom.
Eu tenho ouvido de forma compulsiva a cação "The Mercy Seat" e em bora a versão de J. Cash seja vocalmente melhor construída e tenha também um equilíbrio emocional na interpretação, eu a deixei de lado pela versão ao vivo que achei de Nick Cave, totalmente degringolada, desesperada, como se fosse a última canção do show, ou da vida, urgente, pungente, raivosa. Ela me define. Raivoso, degringolado, desesperado, urgente, repulsivo muitas vezes (a interpretação de Cave não tem nada de repulsiva porque ele é um artista, eu sim porque além de não ser um artista, sou repulsivo mesmo).
Eu não sou divertido e aos 48 anos não me tornarei. Sou tímido, só não sento com as mãos abraçando as pernas porque é o que faltaria para me internarem, ainda mais se eu ficar balançando o corpo como ficava. O único momento que sou alguém é quando estou atendendo um cliente. Me liberto, saio do corpo e alguém minimamente prestável se apossa de mim nestes breves momentos. Quando atendo um cliente, eu sou até, pasmem! Divertido.
Mas logo passa e volto a ser apenas eu. Desinteressante e nada divertido. Alguém que se dançar com alguém, será apenas por interessesd outros do que a diversão, então não posso.
É isso.
Ouvindo: Nick Cave
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