Falando Sobre TDAH


Eu agradeço a minha mãe por inúmeros motivos, pela vida, por seu cuidado, enfim, ela foi uma mãe que embora gostasse mais da minha irmã, o que não a culpo nem um pouco, já que possivelmente um pôney se afeiçoaria mais a Fernanda que a mim assim como qualquer outro ser pensante ou não. Porém nunca me faltaram cuidados, minhas botas ortopédicas para meus estranhos pés, uma defesa leonina  da minha pessoa perante quem quer que fosse e sobretudo seu cuidado com meu TDAH. Fui a inúmeros psicologos na minha infância e sempre que um levantava a questão de que eu precisava de medicamentos para controlar o meu problema minha mãe trocava o profissional.

Eu agradeço todos os dias pela sua atitude pois hoje sei bem que se as drogas existentes hoje em dia para o TDAH são pouco mais que porcarias que interferem na personalidade da pessoa, imagino na época como deveriam tratar os que eram diagnosticados como "Hiperativos". Minha pequena vida escolar foi marcada por visitas da minha mãe as escolas tentando explicar as professoras que eu precisava ser tratado de forma ligeiramente diferente, com um pouco mais de paciência, mas nunca funcionou.  As professoras não tinham a menor paciência e lembro de uma em específico, professora Elaine, que em uma aula onde faziamos um ditado (o que pode ser mais bobo que um ditado?), me puniu por ter acertado todas as palavras sem escrever nenhuma errada. Sim me puniu me relegando a última cartera da classe e solicitando meu mais absoluto e obsequioso silêncio, caso contrário iria para a diretoria. O que eu fiz? comecei a gritar a plenos pulmões para horror dela e da classe. No outro dia, estava fora dessa escola.

Eu cresci e claro o TDAH me acompanha até hoje e não me incomoda nem um pouco. Porém, incomoda algumas pessoas em meu entorno. Primeiro porque elas não entendem que alguns comportamentos que tenho são motivados pelo TDAH, acham que falar sobre o problema é uma muleta que uso para justificar o que consideram injustificável. Depois porque acham ser uma "doença" e como tal seria resolvida com o uso de remédios. Prefiro ser atropleado por uma manda de Bisões furiosos que tomar Ritalina ou qualquer outra droga do tipo. A única vez que tomei, me senti exatamente assim, atropelado por uma manda de Bisões furiosos e garanto que não há nada pior que ser atropleado por algo assim e sair vivo. Morrer seria um alívio.

Não julgo pais que preferem medicar seus filhos mas o TDAH é antes de mais nada é tratável de forma muito eficaz através da terapia. Fiz terapia muito tempo da minha vida e uma das maiores bobagens que fiz foi "dar alta a mim mesmo" Quem é o estúpido que comete uma atrocidade dessas? Para mim,  a terapia deveria ser algo vitalício, já wue sempre me trouxe beneficios bem palpáveis.

O TDAH sempre me fez ser a criança sozinha no fundo do corretor sentada enquanto as outras se divertiam, seja no recreio, na igreja ou onde quer que eu fosse. Na adolescência, tentei me adequar para  poder interagir com as garotas principalmente e hoje sou um adulto descompensado, confesso. Não me envergonho de ter TDAH, gosto da pessoa que sou e se não gostam, ou algumas pessoas não gostam, paciência. As dores do TDAH não me incomodam tanto mais hoje como anos atrás e a vida vai seguindo. Mas se você conhece alguém que tenha este quadro, seja gentil e acredite que muito da impulsividade, da raiva mal disfarçada e mesmo de uma tristeza aparentemente deslocada são sintomas de uma incontrolável condição neurobiológica não falta de educação ou coisa que o valha.

É isso.

Ouvindo: Samuel Rosa e Lô Boeges

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