Minha Namorada
Minha relação com as mulheres sempre foi um tanto quanto conturbada. Elas se apaixonam, muitas vezes perdidamente, na maioria das vezes perdidamente (não tem como ser modesto neste caso já que sim, sou apaixonante por algum tempo) e depois de um tempo que pode ser contado em dias, na maioria das vezes, dias, mas também meses e mesmo anos, elas se vão, exaustas de lidar com alguém tão difícil quanto apaixonante. O lado difícil sempre (ou quase sempre) vence.
Da mesma forma que tenho clientes que me escreveriam cartas de amor se eu as solicitasse, assim eram essas namoradas, ficantes, casos, o nome que se queira dar enfim. E da mesma forma esses clientes se convivessem comigo por mais tempo que o necessário para a concretização de uma venda pediriam distrato da venda e privação imediata do meu convívio. Não é que eu não seja difícil, eu sou incontrolável mesmo.
Sempre fui, desde a adolescência até hoje. Hoje talvez eu seja um pouco mais tranquilo, mas assim que me percebo tranquilo, me irrito e volto a ser incontrolável. É assim que sou e nem quero pedir desculpas.
Porém, uma não se foi. Graziela, minha namorada e espero do fundo do meu coração minha última namorada, minha companheira, mulher, amiga, confidente e caso fosse católica, candidata a santa. Sim, santa, já que dormir comigo e acordar comigo (seja pela manhã, seja no meio da madrugada, já que sempre a acordo no meio da madrugada sei lá muito bem porque), não é nada simples. Ningué, ninguém mesmo tem a paciência que ela tem e mesmo que muitas vezes a paciência falte, ela respira. Viver comigo é um exercício de respirar e inpirar e respirar de novo, fundo, repetidas e seguidas vezes.
Por que eu me acho demais. E embora, eu de fato muitas vezes seja, em tantas outras, eu apenas acho. E meus rompantes, sejam de alegria, sejam de dor, enlouquecem qualquer um porque se eu consigo ter um comportamento linear por um mês que seja, já é uma vitória tão grande, mas tão grande que é como se eu tivesse percorrido as 20.000 léguas submarinas. Ou dado a volta ao mundo eu 80 dias. Graziela como eu disse se católica fosse, poderia pleitear a canonização, mas ela apenas respira. Grita as vezes também, mas como culpá-la? Eu grito por muito menos. Grito por nada, na verdade. Eu vivo gritanto, vivo tentando colocar para fora tudo o que me enlouquece por dentro.
Sim, tem o lance do TDAH, mas não explica tudo. Porque sempre no começo dos relacionamentos eu sempre fui um anjo. Um médico bonzinho, que sempre sabe o que dizer, como dizer e sobretudo quando dizer. Sei ser um encanto, mas não por muito tempo. Logo em seguida viro um monstro incompassívo que ao se arrepender ouve músicas românticas e chora. Ou ouço rock e choro. Ou escuto Mozart, meu amigo de desequilíbrio, e adivenhem? Choro. E ainda sim, Graziela não se vai. Procura o mehor que eu possa ter ainda que tenha que arduamente procurar como quem procura sobreviventes em Mariana ou Brumadinho.
Ela não se vai ainda que eu praticamente a obrigue a ver filmes que só eu e o diretor gostaram. Séries que são bobocas e falam apenas comigo, ainda que eu as vezes mostre amar mais meus livros que qualquer outra coisa. Ela não se vai. Eala esta ao meu lado. Seja dia, seja noite, seja um inverno inclemente, seja um verão escaldante, ela esta do meu lado. Se temos grana celebramos, se estamos duros, nos recolhemos. Se eu xingo motoristas de no transito de "arrombados" (ela odeia), deixa claro para mim que odeia, mas não desce do carro. Quantas vezes eu mesmo desci do carro e sai andando absorto em minha raiva interna? Quando cheguei finalmente em casa, a porta estava sempre aberta.
Se me perco em mim mesmo ela me ajuda a me achar e se tenho momentos como hoje quando tudo parece sem graça, quando eu perdi a confiança em mim mesmo, quando estou só e oprimido, ela esta do lado. Ela é minha namorada. E é tudo isso que eu preciso.
Obrigado, Gra.
É isso.
Ouvindo: My Valentine
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