Louis Litt Sou Eu.

 

Eu jamais assistiria Suits por estímulo próprio por assim dizer. Eu boicoto séries que todo mundo fala bem, que todos gostam. Niunca assisti This Is Us, por exemplo, ou The Office, pra ficar em apenas dois exemplos. Mas um dia a Netflix "pediu" para me surpreender e eu deixei. Ela me sugeriu Suits. Ok, é uma boa série, mas ela funcionou para mim até a segunda temporada como entreterimento televisivo de qualidade. Depois, (eu estou finalizando a quarta temporada), ela me prendeu por um único motivo: Louis Litt. O personagem é simplesmente perfeito, o detestável mais adorável que conheci até hoje na ficção.

Litt é daqueles personagens que a uma primeira olhada, não vale o come. Olhando novamente, ele continua a não valer nada. Olhe uma terceira vez e tenha a mesma impressão novamente, não tem nada de bom ali. Continue ainda sim olhando e as camadas vão aparecendo aos pouco. Enquanto o ator que interpreta Harvey Spector é lindo e elegantemente trajado e ator que interpreta Mike Ross é igualmente belo, Rick Hoffman, que dá vida ao Litt é apenas um homem feioso, gordinho e embora também elegantemente trajado, Hoffman atua de forma tão concisa que o seu Litt sabe que não tem terno que o embeleze o suficiente e em um escritório onde todos foram contratados ao que parece por serem pornograficamente belos, ele é literalmente o patinho feio.

Acontece que Litt é escandalosamente competente. Domina seu ofício como poucos, mas em sua sanha desenfreada por aceitação passa o tempo todo enfiando os pés pelas mãos tomando decisões com ora com o coração, ora com o fígado mas jamais com a cabeça. Isso o faz ser desprezado, humilhado e descartado como o que não é, um incompetente de marca maior.

Louis quer ser reconhecido, quer ser um sócio nominal, (aquele que tem o nome na parede) mas não sabe se vender. Ama a empresa que trabalha mais do que sua família, mais do que tudo e ainda sim é sempre preterido. Ele não quer disputar com Harvey, que é um "quebra regras por definição" e ainda sim é mais amado que qualquer um por ali e "ali", não é nada mais, nada menos que o escritório de advocacia mais importante de Nova York.

Quando a segunda temporada da série se findou, achei que minha paciência para com ela tinha se findado também, mas analisando o que tinha visto percebi minha paixão por Litt. Ele é aquele palhaço triste, que se veste como os outros, bebe o que os outros vestem, fala como os outros falam, tudo isso para ser amado e aceito e nunca o consegue. Porém, torna-se amigo de Rachel (uma personagem, obviamente), por gostar de balé. Alias, gostar e entender de balé. Da mesma forma, o teatro, mais especificamente as peças de Shakespeare o unem a Donna, (outra personagem evidentemente), e quando Litt consegue libertar-se do personagem de Sócio Senior implacável para ser ele mesmo, com seu sorriso que mostra seus dentes exageramente grandes na parte de cima, ele entãoconquista as pessoas a sua volta com generosidade  carinho insuspeitos.

Mas a vida, que é imitada pela arte sempre, é implacável e para com Litt e toda vez que ele quer ser ele mesmo, gentil, atencioso, sensível, um golpe horrível o derruba e para levantar-se ele precisa voltar a ser quem não é como forma de defesa. E por mais que a série não seja nada além que um recorte ficcional do mundo da advocacia corporativa americana, é impossível para quem a assiste de forma maismais atenta não se comover com o opróbio de Louis Litt e perdoar-lhe os ataques de fúria e mesmo os atos reprováveis que aqui e ali ele acaba realizando.

Suits é uma daquelas séries para se assistir porque um dos personagens vale por todos os outros e no meu caso especifico,  me identifico com Litt. Temos praticamente a mesma idade (tenho 49 e o ator 51), gostamos de arte, amamos nosso trabalho e não sabemos nos vender. Louis Litt, no final das contas, sou eu.

É isso.

Ouvindo: Atrilha sonora de Blade Runner

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