Para Moise, Com Amor
Ninguém sai de seu país para não mais voltar porque simplesmente quer. Isso não existe. Você só desiste de seu país quando percebe que ele desistiu antes de você, quando a fome, a guerra, a peste, a loucura coletiva, e tantos outros fatores enfim, se fazem mais forte que o senso de pertencimento que cada individuo tem pelo país que nasce.
Moise quando emigrou para o Brasil certamente se sentiu um pouco em casa ao chegar. O Sol, a quantidade de negros como ele nesse novo país, a efusividade e afetividade das pessoas, tudo isso deve ter feito com que ele tenha pensado que talvez este novo lar fosse apenas uma extensão do seu lar original e Moise, eu imagino, sentiu-se feliz.
Moise morreu da forma mais curel e brutal que se possa imaginar. Morreu como o cachorro espancado e morto a pauladas no Carrefour de minha cidade, Osasco, sem chance de se denfender de tantos que eram os seus agressores. Morreu porque foi cobrar algo que lhe era devido e bebado ou não, certo ou errado, jamais deveria ter tido o destino que teve. Morreu porque vivemos uma bárbarie em um país sem leis que funcionem para pretos e pobres. Morreu porque o máximo que fazemos ao encontrar um cadáver ainda mais se preto for o corpo, é desviar o caminho e o olhar como se desviando olhares, caminhos e pensamentos, a tragédia não existisse mais.
Acontece que a tragédia esta ante nossos olhos e grita diariamente para ser vista e minorada. Acontece que a tragédia é personificada por um presidente doidivanas que se cala ante cada absurdo que acontece a vista de seus olhos. Ninguém se importa mais. Não houve e não haverá gritaria por Moise. Não houve e não haverá pranto por sua vida além daquele derrubado por seus familiares. A vida segue porque cada um de nós chora suas próprias dores esquecendo-se que a solidariedade coletiva poderia sim mudar este cenário de horror.
Para Moise, eu diria se pudesse, que o Brasil não é composto somente por este animais, estas bestas feras em forma de seres humanos que tomaram para si o designio de decidir pela sua morte. Eu diria que somos uma nação de pretos pobres e brancos que como diriam Caetano e Gil, são de tão pobres, quase pretos. O Brasil, Moise, embora tenha sua parcela de bandidos fardados, tem também gente que acolhe e ama. Gente que divide um marmitex, que tira sua blusa para dar a outro que precisa mais, que na feira compra frutas para si e para quem precisa. O Brasil que talvez não tenha dado tempo de você conhecer, Moise, é sim, acolhedor, é sim um lugar de gente honesta e boa.
E embora, Moise, você não esteja mais entre nós, alguns poucos, tentarão dignificar sua memória, tenha certeza e este poucos são o que resta do espirito brasileiro que se entristece com o que houve com ti. Que se pudesse abraçaria sua mãe e irmãos e diria palavras de consolo, pois acredite, Moise, somos, os de bem, muito mais do que esses bárbaros podem fazer parecer que somos.
Descanse em paz, Moise, o abrigo que você buscou aqui em nosso país, lhe foi negado, mas ainda sim, eu desejo que ao menos seu descanso seja livre de perturbações e que a justiça não lhe seja negada como foi a sua vida. Que sua morte, Moise, reverbere pelo mundo e que possa ser um marco onde nós brasileiros possamos mirar e aprender que não somos apenas futebol e samba ou ao menos não devemos ser apenas futebol e samba e sim acolhimento, amor, solidariedade e igualdade.
Moise, com amor eu te desejo um bom descanso.
É isso
Ouvindo; Pra Ludmila Ferber
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