Quando Eu Vi o Mar

 

Quando eu era criança os carros tinham cores. Tinha carro azul, amarelo, verde, vermelho, bordô, enfim, eram divertidos de ver. Hoje tem essa ditadura imbecil do carro branco, ou prata, ou preto e rarrísimos carros  furando esta tríade de corres chatas. O meu é um verde meio cinza, meio verde de novo e eu adoro a cor. Mas enfim, foi a bordo de um fusca de cor diferente, meio cinza claro, meio azul, que eu fui ver o mar pela primeira vez.

Eram cincio da manhã quando saímos do bairro da Penha. Eu me lembro bem. Minha mãe me fez acordar cedo mas não me disse onde íamos. Eu conheci o mar relativamente tarde, aos 12 anos, mas depois desandei de ir a praia, seja sozinho, seja acompanhado. Mas foi minha mãe quem me mostrou o mar e alguns rituais para ir até lá.

Parar em algum restaurante para comer é um deles. Como assim descer até a praia direto? Sem direito a parar? Me recuso! Observar a paisagem na descida. Seja eu dirigindo, seja eu de carona, ver o mar quando ele se  mostra ainda da serra, languido, me chamando é algo que eu adoro e quando chego na cidade, preciso rodar um pouco por ela anrtes de escolher a praia. Olhar o mar foi minha mãe quem me ensinou, segurando aqueles cantis de aluminio que alcoolatras levam consigo. Mas naquele dia ela estava po´tica, a melhor versão de minha mãe diga-se de passagem. E ela me falou sobre a beleza do mar visto do alto e da beleza do mar estando em frente a ele. Tudo com lindas palavras, não de forma didática ou sem graça. Essa era dona Alexandrina, cachaçeira e poeta.

Rodar pela cidade um pouco aprendi com o namorado de ocasão dela que nos levou a praia. Tão bebum quanto ela, se eu tivesse um pouco mais de visão jamais teria embarcado naquele fusca dirigido por um cara já mamado as 5:00. Mas enfim, foi um ensinamento útil, pois nem sempre a primeira faixa de areia é a melhor para se ficar e repetir sempre a mesma também não é bacana, ao menos para mim. Há que se procurar com calma, levando em conta o Sol do dia, quiosques abertos e tudo o mais.

Eu sabia conceitualmente que o mar era salgado. Burro como apenas eu sou, aprendi também na prática ao entrar com a boca aberta e tomar muita água salgada. Minha mãe acho que já esperava por este acontecimento bizarro, pois apareceu com uma garrafa de agua mineral como num passe de mágica e me deu para lavar a boca agredida pelo sal. Mães conhecem seus filhos e a minha sabia o capiau que eu sempre fui e ainda sou.

Fomos até Santos, destino mais próximo quando se fala em praia vindo de SP capital. O mar estava bom, a agua morninha do Sol, pessoas bonitas eu do alto dos meus 12 anos me diverti as pampas e minha mãe procurou me dizer tudo o que sabia sobre o Sol o mar e as estrelas em geral. Ela  me ensinou a brincar na água, e até hoje quando entro no mar faço exatamente como ela disse, sempre tomando cuidado para não ser puxado pelas ondas embora quase tenha morrido afogado em Copacabana uma vez, quando fui literalmente salvo aos 45 minutos do segundo tempo por um surfista que me colocou na prancha dele e faliu pra eu me agarrar a ela. Aterrisei salvo e obviamente humilhado bem na frente da minha mulher a época, mãe de Rafaela que me olhava com um jisto de alivio e vontade de mechamar de bocó, coisa que de fato, fez.

Mas o fato é que minha mãe me fez ter gosto pelo mar. E eu depois levei Rafaela a praia algumas vezes e procurei ensinar ela a brincar apenas no raso pois tenho medo do fundo. Rafaela não era uma menina do raso e nunca se ateve a ele. Ela é dada a profundidades em todos os sentidos da vida e isso me orgulha. Alias, minha filha me orgulha demais. Vou levar Issac para ver o mar também e espero que bem mais cedo do que eu fui. Vamos trocar várias ideias vendo o Sol se por e quando ele crescer mais, vamos jogar frescobol e coisas do gênero. Coisas que avôs e netos fazem. E um dia, quando ele menos esperar, vou parar o carro em frente a sua casa e falar para fazermos um bate-volta só nos dois e passaremos o dia comendo peixe, brincando no mar e tudo o mais que avôs e netos fazem. 

Eu não posso morrer nos próximos 20 anos, acabei de me dar conta disso. Tem muitas coisas que avôs e netos fazem que eu não posso deixar de fazer com o Isaac. Eu preciso estar vivo e minimamente saudável para que a gente se divirta. E tem que ser muita diversão!

Me lembrei do dia em que vi o mar porque me lembrei da boneca viajante de Franz Kafka. Minha mãe me levou para ver o mar porque eu tinha perdido algo que gostava muito assim como Elsi tinha perdido sua amada boneca Brígida. Kafka a viu procurando a boneca e a ajudou a achar. Como não acharam, ele disse a Elsi que era um "carteiro de bonecas" E que Brígida havia ido viajar para conhecer o mundo. Meu mundo em termos de viagens é pequeno, reconheco, mas a viagem para ver o mar com uma mãe poeta e alcoolizada mudou minha percepção de mundo por um espço de tempo. Depois, outras viagens foram mudando ainda mais essa percepção.

TEmpos depois, Kafka presenteou Elsi co outra boneca claramente diferente de Brígida e ela vinha com uma nota explicativa: Não sou mais a mesma, minhas viagens me transformaram. E tempos depois um bilhete foi encontrado por Elsi dentro da boneca. Ele dizia:  tudo o que você ama muito, provalmente vai perder, mas eventualmente o amor vai mudar para uma forma diferente". 

Perdi muito do que amei, mas o amor sempre, sempre, tudo mudou para uma forma diferente. Perdi minha mãe a um tempo atrás mas vou ganhar um neto. O amor que sinto por este serzinho que nem vi ainda é surpreendente1 A força do amor, que tudo muda, transforma, também é.

É isso.

Ouvindo; Alanis Morrissete

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