No Fundo Do Corredor, Virando a Direita e o Caso Da Quadra
Entrei na escola aos 6 anos. Ja sabia ler, escrever, fazer contas de mais, menos e multiplicação simples. Contas de dividir só depois que aprendi a usar a HP12C, antes disso, nem a pau que eu faria uma usando papel, caneta e raciocínio lógico. Saber ler e escrever nunca foi uma vantagem quando entrei na escola, muito pelo contrário. As professoras não gostavam do meu comportamento "insolente" os colegas de classe ficavam revoltados com o fato de eu me recusar a fazer aquelas bolinhas estúpidas e os tracinhos cretinos que as professoras pediam e constantemente eu era convidado a ir a diretoria.
Pra piorar, toda quinta-feira reuniam todos os alunos no pátio para cantar o hino nacional brasileiro. Tem que ser muito idiota, muito Pachecão para acreditar que isso incute algum valor positivo na vida de uma criança. Além do hino nacional tinha o hino da bandeira e mais alguns outros que não me recordo mas eram igualmente idiotas. A escola sempre foi uma tortura para mim, não me ensinou nada além de ser um menino triste e um adulto igualmente solitário e ensimesmado. Apenas a adolescência me foi um pouco mais sorridente. Antes, eu achava que era por conta da igreja e o senso de comunidade, de pertencimento que ela me proporcionava. Não, não era nada disso. Fui feliz porque na adolescência descobri o sexo e o praticava em quantidades pantagruélicas. Hoje, quando reviso minha adolescência com a minha "turma" da igreja, o que mais me lembro são dos passeios em que não fui convidado a ir, os aniversários que nem soube que foram comemorados, e uma certa insistência da minha parte de estar junto com quem não fazia questão de mim. O sexo, no final das contas que a igreja tanto tentava evitar que eu fizesse, me salvou.
A escola que eu estudava tinha um corredor cumprido pra chuchu. Não sei se ele era realmente cumprido ou minha visão de criança o fazia assim. Ensaiei dezenas de vezes voltar aquele lugar e ver como estava e como era de verdade, mas acabou que nunca tive coragem. Cheguei a encostar o carro e ficar olhando para a frente da escola vendo a entrada e saída de alunos mas me toquei que nos dias loucos dias que vivemos, eu poderia ser confundido com algum pedófilo pronto para o ataque e fui embora.
No fim deste corredor tinha uma um outro menor, virando a direita e ali quase ninguém ia. Ou achavam assombrado, ou pensavam que era proibido, ou sei lá o que tinha ali que ninguém ia. Ninguém, exceto eu. Tinh uma professora, a Eliane, que adorva me chamar de atrevido. O que eu acharia um elogio hoje, me magoava profundamente por eu não saber o que significava exatamente na época e principalmente por eu ter certeza ainda sim pelo tom de voz empregado que era algo ruim. Quando ela me chamava de atrevido eu esperava o recreio e ia ficar sozinho lá no fundo do corretor. E aprendi uma liçãi interessante muito rápido: Nunca era notado. Diversas vezes eu não voltei para a sala após o recreio e ninguém nunca me procurou ou ficaram alarmados, nada disso. O motivo? Nem se deram conta que eu não estava na sala de aula. Eu era invisível. Era ninguém.
Acho, e é uma elaboração completamente minha, sem a ajuda de nenhum terapeuta profissional, que gosto tanto da minha profissão porque os meus clientes via de regra, em sua grande maioria, não se esquecem de mim. Eles amam meu atendimento, ligam, tiram dúvidas, ligam de novo, aparecem novos questionamentos e a cada questionamento que vem, eu respondo com precisão, firmeza e conhecimeto de causa. Quando eu era coordenador de projetos, ou gerente de equipe o primeiro atendimento sempre era do corretor dono do cliente. O primeiro e o úlitmo. Os clientes não queriam mais falar com os corretores tal o nível de excelência do meu atendimento, algo que obviamente eu me orgulho. Deixei de ser, após virar corretor de imóveis, aquele menino escondido no fim do corredor virando a direita de uma escola obscura de Guarulhos. Eles me chamam pelo nome, me agradecem, dizem que o negócio só aconteceu porque eu lutei por eles, porque eu intervi de forma decisiva. E é verdade.
A uns dois anos atrás eu acho, pensei em voltar a jogar bola. Uma turma de pessoas que eu conhecia, um churrasquinho no fim do jogo, uma forma de suar e parecer menos com a bola do que eu pareço. O saldo não foi positivo. Uma lesão que sinto até hoje na virilha e me faz as vezes gritar silenciosamente de dor na maioria das vezes que eu levanto após ficar algum tempo sentado e uma lesão na alma. Explico. Sou goleiro. Gosto de ser goleiro mas me tornei um para ter lugar nos times que eu jogava na rua ou no clube ou na puta que pariu que fosse porque afinal eu queria jogar. Dai peguei gosto pela posição, pois ver a raiva estampada na face de quem achou que faria um gol e se frustrou com a minha defesa era algo muito, muito satisfatório.
Da mesma forma que eu era um adolescente muito bonito, eu era um ótimo goleiro quando estava afim, embora o meu esporte de alto rendimento seja o volei. Quando eu estava motivado, fechava o gol de forma irritante. Hoje, da mesma forma que me tornei um adulto feioso, me tornei um goleiro bem horrível, basta chutar tirando a bola da minha direção que o gol é certo. Mas enfim, pensei em jogar porque afinal no local onde ia ninguém jogava patavina alguma embora o ego inflado da maioria os fizesse sonhar no período de 1:30h que eram craques capazes de jogadas fulgurantes. Não eram. As jogadas eram hilárias, nada além disso.
A Quadra tionha uma divisão de valores pois era alugada e ninguém é comunista afinal de contas, de R$50,00 por pessoa a cada mês jogado. Ok, paguei os dois ou três meses que fui com entusiasmo, afinal estava curtindo jogar, estar ali, mesmo machucado. Em uma conversa informal no entanto, descobri para minha tristeza que os demais goleiros NAO PAGAVAM NADA, e mal sabia eu que isso é uma pratica comum quadras a fora, já que ninguém quer jogar fixo no gol e quando um abnegado aceita é agraciado com essa isenção. Todos os demais goleiros, 3, salvo falha em minha memória, tinham a isenção. Eu, não.
O pior é que ao descobrir tal desdita, não tinha o fundo do corredor para ir e chorar de raiva. Tive que fazer o que sempre faço depois de adulto que é engolir e seguir em frente. E em frente segui com o aquele bolo na garganta que custou a descer, mas desceu. Eu não sei se vou morrer logo, as vezes acho que sim, pois tenho revisado muitos momentos passados em minha vida e tenho descoberto que eles são completamente diferentes do que eu achava que tinham sido. Isso tem me feito ainda mais solitário, ainda mais desconectado.
O fundo daquele corredor, a direita, onde tantas e tantas vezes passei minhas manhãs sozinho, abraçado aos meus joelhos, não me fez bem, nada bem. Penso cada vez mais que tudo o que aconteceu deixoiu marcar irreversíveis e como não soube lidar com elas e ainda não sei, nada mais me resta além de aguardar que meus dias se findem. Minha redenção, ou meus momentos de redenção vem quando atendo um cliente e ele se sente grato, feliz, satisfeito com meu atendimento. Comprando ou não ele me agradece. Comprando ou não ele reconhece minhas habilidades. Pena elas serem tão poucas, pena elas serem tão específicas, pena eu ser tão pouco, pena eu ser tão específico.
É isso.
Ouvindo: Elton J.
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