Cinzas, Boletos e Encélado
São 22:40 de um sábado à noite e eu poderia estar vendo um filme, conversando com a Graziela, dormindo, vendo fotos do meu neto ou até em uma chamada de vídeo com minha filha. Em vez disso, estou na frente do meu notebook, escrevendo. Nos fones de ouvido, um loop de dez horas — não é força de expressão, é de fato um loop de dez horas — de Song On The Beach, do Arcade Fire, uma das músicas da trilha de Her.
Estou coçando a cabeça furiosamente, sinal de que estou irritado e nervoso. Embora a placidez desta música devesse me induzir a uma calma quase sonífera, ela tem o efeito oposto: irrita-me ainda mais. Quero entender minhas desconexões, o que não conseguirei. Após a irritação e de minha cabeça praticamente sangrar de tanto coçá-la, vem a frustração de não entender por que, aos 52 anos, ainda não achei meu lugar no mundo.
Vendi um imóvel hoje, pelo WhatsApp. Não é força de expressão. Pelo celular, convenci um cliente a me enviar documentos, Imposto de Renda e tudo o mais. Fiquei, a princípio, muito orgulhoso de minhas habilidades; depois, caí em mim: talvez vender imóveis seja a única habilidade que eu realmente tenha. Passei o resto da tarde em estado de suspensão, desconectado de tudo o que é real. E desde as 16:15, com um pequeno intervalo para um banho, estou ouvindo este loop agoniante do qual não consigo me livrar.
Tal qual Theodore, que namora um sistema operacional para não ter que lidar com emoções reais, talvez eu ainda não esteja pronto para lidar com o que vem das outras pessoas. Talvez eu vá ser um avô horrível, que tentará "ensinar" meu neto a ser feliz, a ouvir as coisas que gosto e ler o que eu leio. Isso definitivamente não pode acontecer, senão ele será um ser humano que acha tudo chato, sem sabor, sem cor, sem vida, normal demais. Quando, na verdade, talvez eu seja o chato, o banal, o sem cor.
Acabei de fazer uma feridinha no couro cabeludo. Lutarei com ela pelos próximos dias, tentando arrancá-la e vendo o sangue em meus dedos; ela nascerá novamente e assim sucessivamente, até que eu vença a batalha contra as defesas do meu corpo — que, cansadas de lutar contra o invasor que sou eu mesmo, pararão de resistir às minhas investidas surreais contra minha própria saúde. Fiquei três dias sem tomar meus remédios para a diabetes porque me sinto escravo deles. Isso dá uma mostra do imbecil que sou.
Assisti hoje, pela enésima vez, à biografia de Steve Jobs protagonizada pelo Ashton Kutcher — um Jobs bem mais crível que o de Michael Fassbender (que é um ator quinhentas vezes melhor, mas que aqui derrapou em um Jobs aborrecido e autocentrado além do razoável). Senti-me tão incompreendido quanto ele, o que mostra que meu ego é, no mínimo, do tamanho do estado de Montana. Estou tão desconectado da realidade que não preciso de um psiquiatra, mas de uma junta deles.
Minhas desconexões ocorrem sempre que percebo que a ilusão do controle ainda é forte em mim. Não existe o que se possa de fato controlar: nem emoções, nem o tempo, nem o espaço, nem a vida se ela resolver surgir em Urano ou em Encélado — uma luazinha de Saturno que tem menos de um sétimo do tamanho da nossa Lua (que já é uma bostinha cósmica), mas que, segundo a NASA, tem chances de abrigar vida.
E quem está interessado em vida microbiana além da NASA e de mim? Aliás, só falo de Encélado porque, de novo, ponho-me a duvidar da existência de Deus. Se confiasse Nele de forma total, não olharia para o alto pensando que um monte de gelo poderia abrigar vida. Tudo isso ao som de Arcade Fire, que também fez a trilha de Onde Vivem os Monstros — esta, uma trilha mais solar, mais quente que a de Her, embora ambos os filmes tenham o mesmo diretor.
Sinto pena de Spike Jonze por ele ter sido casado com Sofia Coppola. Minha diretora favorita, mas que soube massacrá-lo sem dó em Lost In Translation. Se há algo que as mulheres sabem fazer é cometer a vingança de forma requintada e ainda ganhar um Oscar por isso. Jonze também ganhou o seu ao dar sua resposta, mas ela foi quase um pedido de desculpas, não uma revanche. As mulheres sabem colocar os homens em seus devidos lugares.
Desconectado, vazio, oco como um pedaço de lenha queimado, fecho os olhos e vejo minhas próprias cinzas. Lembro-me de que, na segunda-feira, nada disso pode perdurar. Preciso vender outros imóveis, tenho uma reunião importante e os boletos não param de chegar — a forma mais cruel de conectar-se com o mundo exterior. Melhor seria se conectar comendo comida japonesa, abraçando meu neto ou assistindo ao futebol americano. Ou ouvindo Chris Rice, mas aí meu mundo cai ao descobrir os processos de assédio contra ele. Que mundo louco!
Um mundo onde percebo que não quero me conectar por obrigação. O que vejo não me serve, não me encanta. Mas aí me lembro, ouvindo este loop infernal, que talvez para o mundo eu é que não sirva, não encante, não entusiasme. Pura desconexão. Pura perda de tempo, como este post, como a minha vida, como os carros que não param de passar na Castelo Branco que vejo da minha varanda.
É isso.
Ouvindo Songs Of The Beach Arcade Fire
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