O Prefácio e o Posfácio De Um Divórcio


Só de pensar em HER, vem-me um nó na garganta que só desata quando choro. Esqueça o Joaquin Phoenix de Gladiador ou de Coringa, filme pelo qual ele ganhou o Oscar. É em HER que ele mostra o grande ator que é — o gigante da atuação que, antes de qualquer coisa, tem o olhar voltado para os detalhes, para o que é "pequeno", porém crucial na fina arte de interpretar.

São pequenos detalhes que fazem HER ser um filme superlativo. É preciso assisti-lo para entender, mas a experiência é tão prazerosa, tão surpreendente e sublime em tantos aspectos que, se há um filme que sempre vou indicar a quem quer algo diferente, é este. Porque HER é, de fato, diferente.

Na primeira vez que assisti, gostei do filme porque a inadequação do personagem perante o mundo é cristalina. Os detalhes mostram isso: ele é frequentemente filmado andando na direção contrária ao fluxo das pessoas; ele está sempre só, enquanto casais se amontoam ao seu lado; ele está sempre sorumbático, triste, mas suas roupas, curiosamente, têm tons mais claros e quentes que as das pessoas em volta. Naquela primeira vez, entendi o filme como um grito de socorro de alguém solitário que não queria mais sê-lo.

Na segunda vez, percebi como Theodore era cercado por tecnologia, ainda que estivéssemos em 2013. Ele tinha o que havia de ponta na época; ele se cercou dela e, no filme, a tecnologia o cerca. E essa mesma tecnologia, através de um programa de relacionamento virtual, se a princípio o acalanta, logo o frustra e entristece. Se por um lado ele é o escritor brilhante, com um trabalho que depende de suas percepções sobre a vida real, por outro é o homem sensível que não está pronto para lidar com as "inovações" que o alcançam. Nessa segunda camada, o filme é um alerta sobre o que a tecnologia pode fazer conosco e no que ela pode nos tornar.

O terceiro recorte veio há poucos dias — e não na terceira vez que vi o filme, pois tenho a capacidade das crianças de ver duzentas vezes a mesma coisa e ainda gostar. Esse estalo me veio ao saber que Spike Jonze, o diretor, foi casado com Sofia Coppola, diretora de outro filme que amo: Lost In Translation. No Brasil, o título é Encontros e Desencontros — uma tragédia que mata o sentido da obra, claro. É o filme que revelou Scarlett Johansson e rendeu indicações ao Oscar de Melhor Filme, Ator (para Bill Murray, o de Os Caça-Fantasmas, que está soberbo), Direção e Roteiro Original (vencido por Sofia).

O roteiro de Sofia é o que faz o filme ser tão bom. Ela o escreveu, evidentemente, como um expurgo de seu casamento; hoje isso é claro, já que ela se divorciou de Jonze logo após o lançamento. Na primeira vez, foquei na solidão dos protagonistas e em como ela pode, paradoxalmente, unir pessoas. O recorte final, no entanto, está na relação da personagem de Scarlett com o marido, defendido de forma preguiçosa por Giovanni Ribisi — um ator que só trabalha quando quer, como qualquer pessoa que leva o cinema a sério sabe. Olhar o filme por esse ângulo é ver o recado inequívoco de Sofia para Jonze sobre como eles se tornaram um casal sem conexão.

Voltando a HER, lançado dez anos depois, fica límpido que, mais que uma resposta, Jonze está dizendo a Sofia, via Theodore, como se sentiu, como seu mundo ruiu e como ele sofreu com a separação. A ponta de esperança no final é também um recado de que ele seguiria em frente. Caso se interesse, assista aos dois. Existem tantas similaridades na forma como foram filmados (ambos usam muito a câmera na mão, por exemplo), com enquadramentos e cenas muito parecidas. Nada a ver com plágio, mas com o fato de que casais de artistas tão talentosos sempre terão similaridades a compartilhar.

Jonze também ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original. Imagino como foi desafiador e libertador escrever a história de ambos do ponto de vista dele. Ele escreveu uma espécie de posfácio, enquanto ela escreveu o prefácio, de uma beleza tocante.

Filmes como HER e Lost In Translation lembram-me por que não gosto de bobagens comerciais nem de blockbusters sem sentido. Se puder, assista a ambos: primeiro Lost In Translation, depois HER.

É isso.

Her Soundtrack

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