De Como Minha Mãe Coçava a Orelha
Minha mãe tinha um lance que quando criança eu achava bizarro, embora eu não tivesse a apalvra para definir naquela época o que tornava a aobsrvação um tanto aflitiva, pois quando não sei definir o sentimento que uma observação causa, fico aflito. Ela enfiava o dedo mindinho na orelha e o chacoalhava furiosamente dentro dela, e furiosamente não é figura de linguagem. Hoje me dei conta que eu faço a mesma coisa e na mesma situação que é quando estou em grande angústia.
Eu me surpreendo coo depois da morte dela eu me lembro claramente de episódios e manias e momentos em que minha mãe tinha comportamentos diferentes ou mesmo inexplicáveis. Em uma época em que mulheres não faziam quase nada ela agitou o hospital que trabalhava, a Santa Casa de Guarulhos para montarem um time de Handebol. Não era Voley ou Basquete, era o ainda hoje relativamente desconhecido e totalmente deixado de lado, Handebol. Guarulhos tinha por algum motivo uma liga feminina da modalidade e eu lembro de ir ido ver alguns jogos com ela como Goleira e Capitã do timo da Santa Casa.
Eram umas pancadas violentas pra xuxu! Ela se jogava de encontro a bola sem medo. Usava luvas, joelheiras e dali em diante eu nunca mais joguei na linha do futebol, só no gol. Mas me lembro de em alguns momentos nestes jogos, ela com seu dedo dentro da orelha, tensa com a partida, coçando furiosamente o ouvido.
Quando eu fazia alguma cagada muito grande e chegava ao seu conhecimento, ela se posicionava e coçava. Quando estou irritado com Rafaela, coço meu ouvido até não poder mais. Quando brigo com Graziela, coço o ouvido, quando um cliente me irrita, a mesma coisa. Eu sempre me impressiono com essas coisas de genética que passam de pais para filhos, sempre. Reconheço minha mãe em mim em muitas coisas mas algumas como esse lance de coçar a orelha é tão automático que na hora nem me lembro mas depois, penso: Caraca! Minha mãe passou por aqui.
Sinto falta dela. Sinto falta de ter alguém para conversar e hoje percebo que ela seria essa pessoa. Mas ela se foi e ai eu fiqueie quando penso em minha mãe me torno um menino de 10 anos escrevendo das angústias do homem de 49 que eu sou. Este ano, no final dele que esta logo ali, farei 50. Minha mãe teria feito 71 no inicio dele, em Janeiro. Escolhemos os opostos do ano para nascermos e ainda sim ficamos próximos nas datas de aniversário.
Dona Alexandrina era complicada, tinha seus defeitos, amou mais a Fernanda do que eu (embora isso eu entenda, pois qualquer um que conhecesse a Fernanda ia amá-la de forma imorredoura e incondicional muito mais do que a este que vos escreve por obvios motivos jáque desde de criança nunca consegui ser encantador, sempre fui um chatinho de galochas, no meu caso, botinhas ortopédicas. Mas quando me reconheço como agora a pouco nos gestos de dona Alexandrina, vejo o quanto eu também sou complicado e o quanto eu me sinto desamparado neste mundo tão mal.
Eu dirijo um carro, eu voto, eu intermedio venda de imóveis, eu tenho um neto, olha so! Eu tenho o Isaac, o amor da minha vida e quero ser para ele um farol, alguém que ele possa contar de forma concreta, mas quando me vejo no mundo em que estou inserido, me vejo só, com medo e querendo correr pra casa na torcida de que a minha mãe estivesse lá. Não houve uma única que vez que ela não tenha me recebido sorrindo e sorrindo também não teve uma vez que ela não pegou meus escritos e se orgulhou. Eram porcarias como são porcarias o que escrevo hoje, mas ela se orgulhava acho que da iniciativa de escrever que eu tinha. E ela tinha um diário também guardado a sete chaves. Lembrei disso agora, mas é claro que vem dai a minha vontade de documentar momentos de minha vida através da escrita.
Minha mãe dizia que eu poderia ser escritor se eu quisesse mas que eu colocava paramêtros muito altos para alcançar, que eu deveria achar meu caminho, não achar que eu seria best seller no primeiro livro. Eu lia Cervantes e ela me apresentou Sidney Sheldon. Ela disse exatamente assim: leia algo simples e rudimentar e depois refine e escreva as coisas belas que existem em seu coração. Disse isso, coçou a orelha furiosamente e me deixou no quarto lendo. Hoje, eu queria chegar em casa, ter 10 anos e ter ela me esperando com um sorriso.
É isso.
Ouvindo: Point Of Grace
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