Qundo a Música Terminar
Há muito tempo, muito tempo mesmo eu me pergunto se minha música ja acabou, se no meu coração só tem um silêncio que ensurdece, que oprime a alma que me desvia da essência do que creio. Não consigo chegar a uma conclusão. As vezes ouço ecos, distantes e ecos, vale lembrar, são repetições, são sons que reverberam lá longe, ondas sonoras antigas que se chocam com a parede e insistem em não morrer. Mas e a produção nova? E a voz cantando a plenos pulmões, os instrumentos rufando alto, sincronizados? Eu não sei se ainda toca alguma música em meu coração e tenho medo que esteja conformado com o fato de som ter cessado.
Ao contrário do que diz uma canção, no meu caso se a musica cessar, nada mais começa. Eu morro, porque vou secar por dentro, minha árvore de frutos que foram maduros e não foram colhidos vai se transformar em galhos secos, que servem para madeira de pizzaria com forno a lenha, nada além disso. A música ´precisa fluir dentro de mim, precisa girar pelas minhas veias, mas me parece que toda a sorte de sons externos tem se sobreposto a esta música tão necessária. Eu ouço de forma cristalina tantos e tantos barulhos desconexos, assustadores, que nada trazem de bom, que nada dizem e nem comunicam, são eles que vão sendo ouvidos de fora para dentro, matando o som que deveria ser produzido de dentro para fora.
Se eu não tiver música dentro de mim do que me interessa todo o resto? Quem serei eu? Nada além do que um ser que vaga de forma desnorteada pela Terra, sendo levao daqui para lá e de lá para cá ao sabor dos sons desconexos e desprovidos de sentidos de direção, sem nada do que sempre acreditei. A música que havia em mim, minhas crenças, meus princípios e lemas inquebrantáveis foram aos pouco sendo desligados da tomada, primeiro uma música, depois outra e outrae quando dei por mim era como se o último violinista tivesse colocado o intrumento no estojo e vendo a bagunça no local tiesse apagado a luz e sumido, buscado outra audiência.
Mas a música sumiu e ficaram os ecos porque eu virei as costas para ela. Eu me esqueci, ou fui me esquecendo aos poucos do prazer que uma canão bem elaborada proporciona. Eu me fiz o desfavor de acreditar que estava ouvindo músicas repetidas e já sem graça e precisava ouvir novas canções que se mostraram completamente destituidas do que eu precisava ouvir. Canções que não podem nem ser chamadas de canções pois lhes falta a estrutura musical, o estofo intelectual imprescindível a quem se dispõe a escrever uma bela letra que se encaixe na música bem composta.
Eu aceitei ouvir porcarias como se fossem obras de arte. Mas mesmo as ouvindo, mesmo teimando em achar que elas poderiam de alguma forma nutrir minha alma, eu sabia que não era possível tirar sustento dali e fui também me desligando destas canções, até restarem apenas esses sons que nem identifico de onde vem. É como quem tinha a mesa farta e posta a sua frente e a tenha trocado pelas sobras fáceis que os cães esperam de seus donos. Si, eu me tornei um cão, um cão danado que não consegue mais distinguir o que é música boa porque deturpou-se tanto o meu senso que me guia, que me da compreensão da vida e dos fatos contidos nela que não sei discernir mais o que é realmente bom, qualquer porcaria me basta e embora não me alimente, ao menos não me deixa morrer.
Quando esses ecos que volta e meio escuto, lá nos confins do meu coração cessarem de vez, não sei o que restará de mim. Eu gostava de me olhar no espelho, a muito anos átras eu gostava de me ver quem eu estava me tornando. Hoje, não sei em que pedaço do caminho eu me desviei e me tornei tão autosufiente de conhecimento, não o conhecimento que eu precisava, que a música me trazia mas sim um conhecimento banal, inútil como aquela conversa de botequim que bebados travam como se fossem tratados de filosofia e que se revelou no fim, o que ele é realmente: Um nõ conhecimento, réles informações que como uma cortina de fumaça me impedem de ver o mundo e as consequências de uma vida longe da música que sempre me guiou.
Alguns times "jogam por música" essa é a expressão. Eu por um tempo, vivi por música. A música era o evangelho. Eu me tornei alguém que sabe tanto dele, do evangelho, que não precisava mais ouvir de sua música e fui cedendo a tudo que é barulho e me desvia do que é reto. Em outras palavras, me fodi. E longe dessa música, e pricipalmente quando os ecos dela que insistem em reverberar, se findarem, ai eu estarei irremediavelmente fudido. A vida é assim, mas não precisava ser.
Quando a música acabar, tudo mais que existe em mim, acaba junto.
É isso.
Ouvindo Novo Tom/ Sandi Patty
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