O TDAH e Eu.

 

Nunca coloquei um comprimido sequer de Ritalina ou qualquer outro composto destinado a "amenizar" os efeitos do TDAH na boca. Se tem algo que posso afirmar além disso é que jamais colocarei em qualquer tempo futuro em que minha vida e passar. Não acredito em químicos destinados a regular algo como o TDAH. Se eu fosse esquizofrênico, tivesse transtorno bipolar ou qualquer outra coisa do tipo, eu certamente usaria toda e qualquer medicação disponível, mas não é o caso. 

O TDAH não faz de mim uma pessoa perigosa para a sociedade, ou um pária, ou mesmo alguém que vai colocar minha própria vida em risco. Ele apenas me faz (e isso no meu caso, pois ele se manifesta de diferente formas em diferentes pessoas), ser uma pessoa com uma extrema sinceridade, um foco extremo em música e leitura e uma desatenção colossal, além de ter uma coordenação motora ridícula, para não dizer inexistente.

Dirigir um automóvel por exemplo e algo que me exige uma atenção fora do comum. O que é simples, natural para a grande maioria das pessoas, para mim exige um esforço imenso. A vezes fico indefinidamente em terceira marcha porque o som esta ligado  e eu curto a música me esquecendo de tudo a minha volta. O motor grita, pedindo uma troca de marcha e eu nem ai. Do nada, volto ao mundo e coloco a marcha correta. Nunca, absolutamente nunca bati o carro. Bom, uma vez saindo do estacionamento de uma farmácia, acertei de leve um poste quebrando uma lanterna. Eram mais 23:00 e o poste ficava no meio do estacionamento, uma total idiotice.

Eu sempre derrubo pratos, copos, talheres. Tenho vergonha de comer perto das pessoas e cometer esse tipo de gafe. Quando preciso almoçar ou jantar com alguém que não conheço bem fico tenso, o que aumenta as chances de cometer o erro que quero evitar. Quando tenho que preparar o meu prato onde quer que seja que não minha casa, minha face pode estar indiferente mas dentro de mim existe uma operação de guerra buscando toda a atenção que eu possa colocar na atividade. A chance de eu cortar uma simples laranja de forma correta é perto de 0, então muitas vezes prefiro não comer a fruta que tem casca que necessita ser cortada do que passar vergonha.

O TDAH me trouxe uma timidez brutal. Perto das pessoas, sempre acho que estou  mal vestido, ou meu desodorante venceu ou existe alguma outra coisa que me envergonhará. Falo pouco, mas quando começo a falar, não paro mais e fico chato. Quando percebo que estou falando muito, é tarde demais. Me distanciei de substâncias potencialmente viciantes porque entre os que tem TDAH, ao menos a maioria de nós,  a chance de viciar-se é enorme. Não fumo porque acho algo ruim mesmo mas nas raras vezes que me aventurei a beber, só parei depois de estar completamente embriagado. Não porque eu ache bacana ser um bebum, mas porque se algo é bom, perco a noção e não paro. Depois da última vez, (que não foram mais que três) decidi nunca mais beber e seguirei assim.

Sou um excelente corretor de imóveis não por causa do TDAH, mas apesar dele. Se eu não tivesse um direcionamento Cristão desde cedo, eu diria que cada vez que preciso fazer um atendimento, algo se incorpora a minha pessoa e o Davi deixa de o ser e passa a ser o Miranda. Se o Davi fosse o Miranda em tempo integral, ele seria uma pessoa muito mais interessante. O Miranda não se permite ter TDAH, não se permite ter emoções que possam traí-lo, não permite que pessoalidades interfiram no seu dia. O problema é que acaba o atendimento e eu volto a ser Davi. Miranda se vai, tão rápido quanto veio.

Davi jamais seria corretor. Sua vida é totalmente ligada as artes. Davi poderia ter sido um roteirista, um redator em agência de publicidade, um criativo, enfim. Poderia ter sido músico, um diretor de fotografia, poderia ser um compositor de letras fantásticas. Mas um dia, Davi precisando ganhar a vida, viu um anúncio de jornal que recrutava corretores de imóveis. Miranda cochichou em seu ouvido: "todo mundo precisa comprar uma casa, abestado.Vai lá que eu faço o resto. Eu fui. E até o meio deste mês buscava vender imóveis a quem quisesse comprar. 

Agora, preciso convencer quem comprou a ficar com ele ou trocar por outro. Miranda esta super excitado com a ideia. Eu, bem cabreiro. Miranda não tem TDAH, pra ele é mais fácil. Hoje fui montar meu prato para almoçar e derrubei arroz na cozinha toda. Antes de comer tive que limpar o fogão, varrer o arroz que caiu no chão, passar pano na cozinha e enquanto isso tudo  se desenrolava, coloquei meu chapeuzinho de burro imaginário. Lembrei de Cartola. "Deixe-me ir, preciso andar, vou por ai a procurar, rir pra não chorar). 

O TDAH me coloca em cada situação! Mas não vou capitular e tomar remédio. Isso seria uma bandeira branca, seria uma violência contra mim mesmo, seria o mesmo que desistir de mim e isso eu não farei. Resta tomar mais e mais cuidado ao fazer meu prato, ao cortar uma laranja. Resta fazer minhas intermináveis caminhadas onde converso comigo mesmo e tentar me convencer que preciso não ser tão descuidado.

É isso.

Ouvindo: Kelly Osbourne

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