Quando Jim Carrey Foi Trágico e Revelou a Minha Tragédia

 

Cada vez que assisto  "Eternal Sunshine Of  The Spotless  Mind" ou  Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, o filme sobe no meu ranking interno de filmes preferidos. Já foi o 15, o 11, o 10, o 5 e agora é o terceiro. E isso se deve quase que exclusivamente a Jim Carrey. Claro que o filme tem um roteiro irretocável, que só Charlie Kaufman poderia escrever e uma direção segura e em que se percebe ao mesmo tempo a liberdade dos atores para seguirem o caminho que os personagens indicam que só Michel Gondry  poderia exercer.

Tem ainda uma trilha sonora fabulosa em que Everybody's  Got To Learn Somethime é defendida com tanta garra, tanto punch pelo Beck, que fica claro que mais ninguém gravaria a música desta forma. Tem a direção de fotografia que escolhe uma paleta de cores extremamente opressiva, que faz o expectador se sentir como Joel, o personagem principal, sofrendo com ele, chorando com ele, se compadecendo dele e ao mesmo tempo tendo uma raiva surda dele e de sua apatia trágica.

E é  ai que entra Jim Carrey. Carrey é conhecido como comediante e vamos ser sinceros é muito mais fácil fazer chorar do que rir e Carrey é brilhante em arrancar risos. Eu literalmente me mijei de rir com "O Mentiroso" que é um filme com um roteiro de bosta, com atuações de bosta de todo o elenco e que ele leva nas costas e transforma em uma coisa inacreditavelmente legal onde só não ri quem é muito, mas muito de mal com a vida. 

Dai Carrey fez "Truman Show" e sinceramente quis o mandar a merda! Uma atuação boba, onde ele quis ser um personagem sério, quis dar um "verniz" cult a sua carreira e cometeu aquela bobagem que a crítica aclamou como "grande atuação" e foi só uma bobagem  travestida de cinema sério. Carrey, eu pensei, era e é muito mais que esse Truman boy mostrou, é um ator de verdade e ele esta ai, escondido, esperando um papel que faça ele florescer. E esse papel chegou em Brilho Eterno...

Em Brilho Eterno..., Carrey não é sério, oque é fácil. Carrey é trágico, o que é algo completamente diferente e muito, mas muito mais difícil. O seu Joel tem um buraco no coração que tenho plena convicção que apenas Pacino, Sean Penn e talvez mais dois ou três grandes atores conseguiriam reproduzir. É um buraco que faz tão, mas tão infeliz que exatamente deixa de ser infelicidade e vira tragédia. Não é que Joel chore as vezes. É que apenas de vez em quando ele sorri e mesmo quando o faz é embebido em sofrimento.

Carrey consegue dar dimensão e profundidade para um personagem que poderia ser irrelevante e  atrair apenas raiva da audiência. Tipo, vamos deixar esse chato de lado, apenas não o convidamos para nada e tudo certo. Conhecemos muitas pessoas assim. Mas Carrey, elevou a tragédia a forma da arte e seu Joel, mesmo contra todos os prognósticos, tenta amar e tenta ser amado. Fracassa irritantemente a cada tentativa, é bem verdade, mas ele tenta. E em sus tentativas acumula ainda mais decepção e dor. 

Não espere que Kate Winslet o acompanhe nesta trip. Sua Clementine é apenas chata e superficial.  Sem camadas, ela jamais deveria ter sido escalada para o filme. Toma uma surra de corrente de Carrey. Carrey é simplesmente magnifico nesta que de longe é sua melhor atuação empatada com a que ele vive Andy Kalfman. Ali ele é mágico também e em certo momento não se sabe o que é filme, o que é louvação a Andy, o que é ensaio, o que é o que...

Vendo por tantas e tantas vezes Brilho Eterno, eu acabei descobrindo a minha própria tragédia. Não uma encenada, mas uma vivida dia a dia, todos os dias. Sem o brilho da atuação de Carrey, ser trágico é terrível, um peso, porque ai você vira aquela pessoa que simplesmente não convidamos para nada para não ter que conviver com a tragédia. 

As pessoas, a maioria dela ao menos, acha que tragédia é aquilo que vemos nos jornais televisivos ou na internet e que se refere a acontecimentos geralmente tristes e que envolvem muitas e muitas pessoas como terremotos, furações e mesmo a recente pandemia. Sim,  isso tudo é trágico, mas a tragédia que se vive só, aquela em que sempre se é preterido, nunca se é amado, nunca se é compreendido e isso passa a ser normal, passa a ser o habitual da vida, de forma que se incorpora de forma definitiva não ao seu caráter, mas a sua persona, essa tragédia é  a que invalida a vida e a tragédia a qual ninguém quer se dar conta que esta dentro.

Carrey, com sua atuação fabulosa, que eu vejo e revejo o tempo todo, revelou a minha própria e não a nada que se possa fazer quanto a isso. A tragédia, afinal de contas, esta ai para ser vivida. Na abertura do livro "O Poderoso Chefão", Mario Puzo usa a seguinte citação: "Todas as famílias felizes se parecem mas cada família triste é triste a sua maneira." Leon Tolstói. 

Da mesma forma, a felicidade de cada pessoa se parece muito com a outra, mas a tragédia de cada um é vivida da forma que melhor aprouver a cada pessoa. Não sei se esse post foi uma louvação a Carrey (sim foi), ou se foi uma constatação patética da minha própria tragédia pessoal. E tanto faz.

É isso. Ouvindo: Back

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