3X With A Little Help From My Friends
Música é antes de mais nada interpretação. Seja uma sinfonia que pode ser perfeita e te elevar aos céus se executada pela orquestra correta, seja uma música pop, um rock ou mesmo um tango. Tudo depende da interpretação de quem executa e isso influencia diretamente a audiência, seja ela uma multidão, seja apenas uma pessoa. Não por acaso existem artistas e existem seres medíocres que destroem canções sem dó nem piedade. Hoje a minha reverência vai para 3 grandes artistas que interpretando a mesma canção trazem enlevo, alegria, esperança e tantos outros sentimentos bons ainda que com interpretações absolutamente distintas entre si.
A música, With A Little Help From My Friends, tem uma letra que é tanto delicada como poderosa. Escrita pelos imbatíveis Lennon/MacCartney, traz uma mensagem que pode ser entendida de diversas formas e essa é a beleza de uma canção. Quando um artista consegue escrever uma obra aberta a interpretações ainda que diga exatamente o que quer dizer, ele concluiu seu trabalho com sucesso. Quando ele coloca seu público para pensar e não apenas ouvir, ele deve ser exaltado. Tudo isso e mais Lennon e MacCartney conseguiram com essa música tão fascinante.
No entanto não vou começar comentando a versão dos Beatles e sim uma muito peculiar de Joe Cocker. Pouco conhecido no Brasil e creio que mesmo fora subestimado diante de todo o talento que possui, foi no mítico Woodstock que Cocker interpretou de forma tão arrebatadora e cheia de significado uma das músicas que o tornaram mundialmente conhecido, embora eu repito, menos incensado do que deveria. Sua interpretação é absolutamente orgânica, cheia de maneirismos corporais que eram marca registrada não apenas dele mas de uma época mas que casam perfeitamente com o clima do momento e com a música. A banda que o acompanha é um escândalo de boa e embora certamente todos ali estivessem chapados a não mais poder, ainda sim entregam uma performance nada menos que arrebatadora. Som e fúria em uma canção precisa de exatamente som e fúria. Se não, vejamos:
Beatles. Antes de mais nada, esqueça a versão de Joe Cocker. Aqui o excepcional baterista Ringo Starr mostra que apesar de tímido, (uma timidez que transborda nos vocais) é um vocalista a altura de Lennon e MacCartney. A doçura de sua interpretação reforça a beleza contida na letra e música. A generosidade generosidade dos demais Beatles executando um back vocal contido, deixando que o brilho fosse todo de Starr, fala muito sobre essa banda tão genial. Escolho Cocker como melhor performance por conta de toda fúria de sua interpretação mas a gentileza desta me conforta em dias cinzas.
Rita Lee. Sei que MacCartney elogiou esta versão e tenho a mais absoluta certeza que Lennon faria o mesmo. Tia Rita, a Rockeira mais foda que o mundo conhece, que adicionava para mim pimenta e não doçura aos Mutantes, acertou na mosca ao gravar essa homenagem que realmente é uma homenagem na acepção mais pura da palavra. Um arranjo contido, um vocal que de longe é o mais emocionante dos três porque ao menos a mim lembra o quanto um artista deve ser multifacetado e saber o momento de baixar o tom e a hora de erguê-lo as alturas. Tia Rita me faz sorrir cada vez que ouço esta canção que esta em um álbum tributo que ela gravou para homenagear o Fab4. Quando este álbum saiu, não parava de ouvir e ainda hoje esta no meu Spotify em lugar de honra. Faltou som e fúria, sobrou delicadeza e no fim das contas ficou lindo.
Qualquer imbecil minimamente vivido sabe que Lennon e MacCartney se referiam as drogas quando diziam que se "Eu me ergo com uma pequena ajuda de meus amigos" Ora, eles podem negar a vontade e sempre haverão almas ingênuas e puras para dar crédito a negativa tão cínica. No Entanto isso em nada diminui o valor ou a beleza desta que é uma das minhas favoritas entre as favoritas. No fim das contas cada um toma para si aquilo que melhor lhe representa. Uma música atemporal.
É isso.
Ouvindo: Joe Cocker, Beatles, Rita Lee
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