Sinfonia, Dribles e o Direito de Criticar

 

Quando o policial interpretado por Will Smith vai interrogar Sonny — o robô acusado de assassinar seu criador humano, a quem ele chama de "pai" —, faz uma pergunta que, além de irônica e perturbadora, tem a clara intenção de desmerecer e abalar o moral da máquina. O policial questiona: "Você sonha?". Logo em seguida, afirma que um cão sonha, mas que Sonny é apenas uma máquina, uma imitação da vida; não a vida em si — pulsante, verdadeira, cheia de emoções e sonhos.

O personagem de Smith nutre um ódio profundo pelos robôs e, antes de tudo, parece odiar a própria vida. É um bom policial, nada além disso, e perceber-se limitado o frustra — e essa frustração vira violência verbal.

Sonny, por sua vez, é especial. Foi criado para grandes pensamentos. Se fosse humano, Sonny seria tudo, menos medíocre. Mas o que o afasta da aceitação e o coloca como principal suspeito de um crime é justamente sua condição de "não humano", de diferente, de robô. Acontece que a inteligência de Sonny é algo ímpar, para o qual o policial não está preparado. No segundo movimento do interrogatório, essa característica coloca o investigador em xeque.

Com sua verborragia ativada, o personagem de Smith pergunta de forma agressiva: "Um robô pode escrever uma sinfonia?". Sonny o olha e o desmonta com uma devolutiva sensacional: "Você poderia?".

Bingo! Nós, seres humanos, somos exatamente assim. E é aqui que o futebol entra. Jamais, em tempo algum, eu driblaria como Neymar, da mesma forma que jamais comporia uma sinfonia. Mas agora, com a Copa do Mundo chegando, não apenas eu, mas milhões de brasileiros se arvorarão do (falso) direito de, caso a seleção não vença, culpar o craque.

E quando falo de Neymar, refiro-me a qualquer jogador: Vini Júnior, Alisson... escolha o seu. A esmagadora maioria dos que criticam jamais conseguiria igualar a forma diferenciada com que eles tocam na bola, para ficarmos no básico. Muitos não entrariam em um campo de várzea minimamente cheio sem tremer, que dirá jogar em estádios de Copa do Mundo, sendo escrutinados por uma audiência global. O que fariam esses que falam? Vestiriam a camisa 10 e brilhariam se lhes fosse dada a chance? Chamariam para si a responsabilidade de bater um pênalti decisivo?

A resposta é, evidentemente, não. Tal como o policial que interroga Sonny, essas pessoas querem apenas o direito de criticar, ofender e deleitar-se com o erro do gênio. Querem dizer que fulano é velho, que sicrano é "chinelinho" ou que existem goleiros melhores. Mas os que falam resistiriam ao pedido de trocar de lugar com os citados? Ou, como o personagem de Smith, apenas arregalariam os olhos sem uma resposta que faça sentido?

Eu jamais driblaria como Neymar e tenho plena consciência disso. Por isso, desejo a ele e a toda a seleção sucesso. Se fracassarem, que tenham feito o melhor possível — para mim, isso já bastará.

Força, Brasil!

É isso.

Ouvindo: A.I Soundtrack

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