Porque Ele Escreve Afinal?
Antes é preciso dizer que ele não escreve por um motivo específico: Ser lido. Sim, existe sempre alguém que vai lá e lê as coisas que ele escreve, mas nem de longe esse é o foco. Afinal, sua escrita confusa e muitas vezes sem sentido não traz a fluidez necessária para o prazer da leitura e muitas vezes o texto é excruciante para ser simpático e não dizer ininteligível. Então, escrever para ser lido é uma ideia descartada.
Mas ele escreve para ler o que esta escrevendo. Sua cabeça confusa precisa periodicamente por suas ideias para fora para que não entre em curto já que seus pensamentos incessantes ficam se avolumando na caixa craniana causando dor física até. Escrever neste caso é como uma válvula de escape (alguns pensarão de escape do esgoto e tudo bem), que ele tem para aliviar a pressão através da descompressão que a escrita causa.
Ele escreve por ter sempre uma opinião sobre tudo e isso é algo que ele não consegue evitar embora tente. Não ter opinião ele bem sabe, muitas vezes, na imensa maioria delas é muito melhor que tê-las e pior, distribuí-las. Mas ele não se contém e sempre precisa falar. Seja sobre seu amor por Maria Callas e porquê ela é para ele a maior voz que já existiu em todos os tempos, seja para falar sobre seu ódio incontido de seu atual presidente, o Bozó. E ai ele precisa explicar que não se trata do palhaço Bozo com a grafia errada e sim do Bozó, personagem idiotizado de Chico Anísio. Ele escreve para dar opiniões ainda que seja para ele mesmo. é um tolo, e sabe disso, mas não consegue evitar.
A escrita que ele produz também serve para lembra-lo que nem sempre tudo o que dizem a seu respeito é verdade. Ele costuma através de suas próprias palavras, mostrar a si mesmo seus motivos e motivações para muito do que faz ou deixa de fazer. Ele sabe de seu turbilhão de emoções que muitas vezes explodem na hora mais errada possível e que não sendo Sonny, o Robô do livro "Eu Robô", clássico de Asimov, ele não consegue falar com voz pausada e tom baixo. Ele grita e se agita e se desespera e as vezes nem "La Mamma Morta" na interpretação de Callas é capaz de acalmá-lo.
Sua escrita advém também em grande parte do fato de ele ser um trágico. O trágico, ao contrário do dramático, não chora. As vezes e muito raras vezes ele pode prantear, o que é bem diferente de chorar. Mas o trágico, aquele que sabe seu fim desde muito tempo, escreve. Escreve para registrar suas desditas, suas pantomimas, seus deslizes e talvez, uma vez ou outra, suas pequenas alegrias, sempre eclipsadas por suas tragédias, sempre mis presentes em sua vida. Escrever alivia o coração cheio de tragédia e solidão.
Ao escrever, ao ver as letras brotando como que por mágica na tela de seu notebook, a solidão é aplacada. Ele se sente só mesmo rodeado de pessoas. As pessoas, ele pensa, não o entendem e não estão preocupadas em entende-lo. Seres humanos que precisam de manual de instruções para serem minimamente compreendidos não interessam a ninguém ou quase ninguém. Ele sabe que suas palavras sempre, ou quase sempre serão mal interpretadas e que se ele pudesse escrever tudo antes de falar o que quer que seja, ele seria mais feliz e talvez alguém pudesse se afeiçoar minimamente a sua pessoa. Não pela qualidade do texto, mas porque ele poderia tentar ao menos, ser mais claro e menos hermético.
Ele escreve mesmo sem ter qualidade, mesmo sem ter competência para tanto, porque sente um vazio no peito que suas palavras as vezes preenchem. Porque escrever o faz perceber-se vivo, ativo, real e ser real para ele é tudo o que importa e tudo o que ele sabe, embora tenha aprendido em 50 anos de vida que poucas pessoas gostam de realidade nua e crua. Mentiras sinceras quase sempre interessam mais que a verdade.
Mas existe também um lado de sua escrita que ainda que raro, por vezes aparece. Ele persegue aquele texto bonito, que emociona, que faz refletir e as vezes, poucas vezes, quase nunca, ele consegue e então, toda a dor, a tristeza, a falta de compreensão, a perplexidade com um mundo em que ele se sente opresso, desencaixado, tudo isso da lugar a um lampejo de felicidade por ter conseguido construir com as palavras certas, algo que merece ser escrito.
A vida dele é feita de poucas alegrias e escrever algo que presta é uma delas e por rara que é, sempre é bem vinda, saboreada e lembrada. Ele ja destruiu capítulos e mais capítulos de um livro que a anos tenta escrever, mas ele é um obstinado e acha que um dia sai. Enquanto isso, ele tem um blog e nele escreve. Ainda que ninguém leia ele escreve pois isso o torna vivo.
É isso.
Ouvindo: Maria Callas, Skank e Marilyn Manson
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