A Mulher No Ponto De Ônibus
Ela tem estatura baixa. Quando ela se senta, os pés não tocam o chão devido a sua baixa estatura. Seus pés não tem calçados, são visivelmente ásperos, a ponto de as solas parecerem "lixas" e as unhas estarem mais parecidas com garras. Seu rosto é duro, marcado por sulcos em sua pele que denunciam o sofrimento de uma vida toda e se eu acreditasse em vidas passadas, diria que ela sofreu nas anteriores também. Os olhos amendoados olham fixamente para o vazio, como se quisessem divisar algo além do infinito "mar de nada" que ela tem a sua frente.
Eu a vejo praticamente todos os dias sentadinha em um banco de ponto de ônibus na Al Rio Negro, em Alphaville. Claro que ela não é moradora de Alpha e me intriga quais os caminhos que a trazem até ali todos os dias naquele horário entre 18:30 e 19:30 e a fazem sentar ali com um detalhe que para mim é ainda mais interessante: Ela sempre esta comendo uma banana. Onde ela acha esta banana? Alguém oferta a ela a fruta todos os dias? Quem lhe da a fruta, não lhe dá opção de escolher por alguma outra? Tem que ser banana? Ou ela gosta apenas e tão somente de banana. De qualquer modo, a fruta é sua companheira diária naquele horário.
Eu daria meu reino para descobrir o porque de todo dia, dia após dia, essa mulher aporta em Alphaville sabe-se vindo de onde e menos ainda sabe-se para onde vai. Tentei uma vez puxar papo com ela, sentei no banco ao seu lado e sorri. Ela sorriu de volta e em seguida fechou a cara, levantou-se e foi embora. De outra feita, guardei a fruta que minha empresa me oferta todas as tarde, sempre com variedade de opções, (neste dia era uma ameixa) e ofertei a ela. Ela sorriu, pegou a ameixa e desapareceu de minha vista quando dobrou a esquina da Al Madeira sem me dizer uma única palavra.
Eu a entendo e não fico obviamente bravo. Quando somos solitários (e eu me incluo na categoria), é difícil aceitar que alguém quebre o seu silêncio. E eu acho também, que ela não esta preparada para se comunicar com um estranho. Meu medo, no caso dela é que não hajam conhecidos com quem falar ao final de mais um dia. Conhecidos que possam lhe dar amor, conforto, sensação de pertencimento a algum lugar, como eu tenho.
Meu medo é que de tanto silêncio ela não lembre de seu nome e que suas demais memórias, sejam de infância, seja de uma vida que um dia teve, também estejam escorrendo juntamente com o seu suor diário. Que os amores que ela pode ter vivido, que a família que pode ter tido, que os amigos que possa ter abraçado, que a vida colorida que possa ter ainda que por pouco tem tido, que tudo isso se perca na neblina que seus olhos enxergam no "mar de nada" que ela tanto olha sentada naquele banco.
Quando ela esta sentada, ninguém se senta a sua direita ou esquerda. é como se ela fosse a pessoa mais folgada do mundo que precisa de 3 assentos para se acomodar e quando na verdade ela sobra em 1 por sua pequenez. Suas roupas puídas, sujas, molambentas, trazem as pessoas em volta uma sensação de asco tão forte que elas nem disfarçam. Sua presença no ponto é incômoda, traz repulsa e um desejo por parte dos que estão ali que seu ônibus chegue ainda mais rápido ou que ela tome consciência da ojeriza generalizada que causa e vá embora caminhando e dobre a esquina da Al Madeira.
Tenho medo, muito medo de ser essa mulher no futuro. Não de me tornar um andarilho, mas que minhas memórias, que tudo de bom que eu vivi e ainda viverei sumam gradativamente de minha mente escorrendo com meu próprio suor, se esvanecendo como as brumas se esvanecem com o nascer do dia. Eu tenho medo que tudo seja escuridão, que meus olhos castanhos (as vezes verdes), se tornem opacos, toldados pela falta de vida neles.
Medo de não ser lembrança, de não provocar um sorriso nas poucas pessoas que amo quando elas se lembrarem de mim e perguntarem pela minha ausência. Medo da morte não há, mas medo de não ser perpetuado na lembrança. De ser uma folha ao vento que de tanto voar se desfez, fragmentada, alijada de sua árvore de origem e empurrada tão para longe dela que não se reconhece mais nem como folha (ou pessoa). Pavor de uma loucura que me ronda desde sempre, que me faz achar as vezes que posso voar e me empurra para um abismo sussurrando em meus ouvidos que posso pular pois as asas já tenho. Por enquanto eu vejo em mim apenas braços e fujo do abismo, mas e se um dia eu de fato enxergar asas portentosas como as dos Serafins e resolver fazer meu voo inaugural rumo a morte certa?
E se ao invés de correr rumo ao abismo, eu resolve me isolar ainda mais do mundo e me torne um andarilho que vive das bananas que me ofertam sem conseguir falar com quem quer que seja, molambento, com roupas aos pedaços e a alma puída por tantos e tantos reveses, tantas e tantas dores e incompreensões? E se eu me tornar aquela mulher sentada no ponto de ônibus?
É isso.
Ouvindo: Three Crosses
Comentários