Como o Sol Que Se Põe Lentamente Em Uma Noite Sem Luar

 

Sinto minhas memórias se esvaindo. Como um dia que foi ensolarado e se encerra em uma noite sem luar. O que me restará quando minhas memórias se forem? Um presente que se perpetua em si mesmo sem as lembranças que deveriam ancora-lo?  Um futuro onde não sei o que me aguarda e nem como enfrentá-lo sem as memórias do que vivi e de como enfrentei meus dias passados?

é como se um pergaminho antes aberto e pronto para a leitura estivesse se enrolando de cima para baixo de forma inexorável, sem chance de desenrolá-lo novamente. As minha memórias mais tenras já se foram e sinto que a cada dia me lembro menos de quem e como eu era. Os lugares que frequentava, os momentos especiais, a vida que eu tinha. Quando alguma lembrança vem, ela vem agrupada a outras memórias e eu fico confuso sem saber se se elas tem conexão entre si ou se minha mente me prega peças e mistura datas e locais, pessoas e ocasiões e me sinto perdido é como o fluxo de um rio cristalino em um ponto de reta, sempre igual, sem desvios ou marcações que me lembrem onde eu estava ou o que houve de fato. 

De um certo ponto para trás e este ponto vem chegando cada vez mais próximo de onde me encontro, eu não consigo me lembrar que existi. Eu apenas SEI que existi e isso são coisas completamente diferentes. Saber que existo não me entrega acesso a emoções passadas a eventos especiais ou dolorosos, ou alegres ou qual seja a emoção que um evento possa despertar na vida de alguém. Eu apenas sei que existi. 

É mais ou menos como ser um boneco de cera do museu de cera Madame Tussauds, uma réplica perfeita de mim mesmo porém sem as emoções que as minhas memórias sempre me garantiram. Não, não sou alguém que vivo olhando o espelho retrovisor da vida, que tem medo de viver o agora ou pavor ainda maior do futuro. Nada disso. Apenas entendo que muito do que vivi foi importante para mim e continua sendo, uma referência de que neste mundo eu vi coisas, eu presenciei situações, fui testemunha ocular de fatos ligados a mim e a outros. Sem essas memórias, sou tão útil como um cone, que existe mas não vê nada e nem pode armazenar o que viu e sente, apenas está ali.

Sem minhas memórias, como poderei revistar antigos amores, afetos, desafetos, ações. Como posso reavaliar de tempos em tempos minha vida se não me lembro de como ela foi? Como projetar como ela, a minha vida será se me falta a base do que fui? As minhas memórias me são vitais e estão sumindo, se pondo  como o Sol se põe me deixando em angústia pois me pergunto qual será a próxima pessoa que me esquecerei para em seguida lembrar que pouco importa já que irei esquecer.

A vida é curta demais para que as memórias mais básicas se apaguem e isso tem me atormentado. Mesmo as memórias que eu sempre quis que sumissem, eu percebo que agora quero que fiquem alojadas em algum lugar ao fundo da minha mente, mas fiquem  lá. A vida é engraçada em diversos aspectos mas para mim ela não tem sido de muitos sorrisos ultimamente. Ao menos a vida que eu ainda consigo me lembrar.

É isso.

Ouvindo: Blade Runner Soundtrack

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