Os Fabelmans O Primeiro Trailer De Filme Que Me Fez Chorar
Eu sempre digo para Rafaela que algumas das coisas que eu falo para ela, só serão entendidas quando a sua plena maturidade chegar. Algumas, depois que me tornei avô e ela mãe ficaram claras para ela, mas outras, eu acho que talvez as mais importantes só serão entendidas no futuro, talvez sem minha presença nesta Terra. Isso é da própria vida. Precisamos viver nossas histórias nossas experiências e as vezes os alertas seja de quem quer que eles partam podem tolher a nossa vivência, limitar nossa coragem de jogar-se rumo ao novo e então, simplesmente os ignoramos.
Sempre achei que minha mãe gostava mais de minha irmã que se foi, Fernanda, do que de mim. Hoje, percebo que não era verdade, eram amores diferente pois filhos são diferentes entre si ainda mais com a nossa diferença de idade. Já foi um parto para ela conseguir impor o nome que queria para minha irmã com o pai dela que queria a todo custo que fosse Maria Aparecida. Ela sempre teve que batalhar muito para conseguir suas coisas e principalmente as nossas coisas, mas hoje percebo que o amor nunca faltou.
Quando disse a ela que queria ser bailarino e fazer aulas de ballet clássico porque tinha ficado absolutamente fascinado com um programa na TV Cultura que mostrava a preparação para ser bailarino e aqueles homens e mulheres rodopiando de forma tão linda e tão sincronizada, eu disse com tanta autoridade do alto dos meus 8 anos que achei que seria fácil. Ele me disse não.
E ela me disse não porque queria me proteger, hoje entendo isso. Na família que vivíamos, isso seria visto como uma declaração de homossexualidade precoce e ainda que isso não tenha o menor problema para mim ou mesmo para minha mãe, ela sabia e hoje eu sei, o inferno que eu viveria. Ele me defendeu, apenas me defendeu, como sempre fez. Mas minha mãe fez mais que isso. Ela me apresentou aos livros e a música. Ele me levou as bibliotecas e me disse que poderia voltar todos os dias se quisesse. Ela me dava vinis de forma compulsiva, desde Denise, a cantora evangélica que jamais deixarei de ouvir até Secos e Molhados.
E livros então? minha mãe me dava aos montes e mais que isso, conversava sobre eles comigo. Trocávamos impressões sobre nossas leituras e eram momentos mágicos para mim. Ela me dava os livros da série "Vagalume", que toda criança da minha idade leu e embora fossem literatura de fácil absorção, sem grandes desafios intelectuais, minha mãe fazia parecer verdadeiras obras de arte, como se fossem verdadeiros tratados de literatura, extraindo o melhor e o máximo de cada obra. Ela me dizia que eu poderia ser um artista, um verdadeiro artista. Nunca me tornei um, mas não a senti decepcionada comigo por não ter conseguido. Ela vibrava com minhas vitórias, fossem qual fossem.
"Os Fabelmans" é a autobiografia romantizada de Steven Spilberg e ele nos apresenta uma mãe, (a sua), que o incentivou a ser um artista, a desde sempre fazer os seus filmes fossem bons, ruins, sempre fazê-los. Claro que para falar de pai e mãe sempre é bom um pouco de fantasia de maquiagem sobre a camada de realidade e foi o que ele fez, mas sinceramente vendo a cumplicidade que ele tinha com sua mãe, de como ela o incentivava a ser um artista a desenvolver sua veia artística de forma tão contundente, não tive outra alternativa a não ser me emocionar e sentir as lágrimas rolando.
Um trailer normalmente não tem mais que 1:30, 2:00. Serve para vender, ou tentar vender, o filme em questão selecionando suas melhores passagens. Neste caso, fica claro que pela quantidade de emoção contida em tão pouco tempo, o filme é simplesmente espetacular. Eu amo os filmes de Spilberg, ainda mais agora ao saber que sua mãe foi sua incentivadora. Mal posso esperar para ver.
É isso.
Ouvindo: Cicero
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