Acabou-se a Livraria Cultura
Não é pela localização que embora icônica não é o determinante para que eu amasse o local. Não é também pelo renome que a livraria adquiriu através dos anos e nem pelo gigantismo de suas instalações. O café que tinha ali servia pratos rápidos, gostosos, mas não faria diferença se não houvesse, ao menos para mim. Seus atendentes dedicados, sabedores do ofício de indicar o melhor livro para cada perfil de cliente, simpáticos, cordiais, ajuda a prolongar o tempo que se ficava naquelas dependências. A variedade de livros, cd's e outros artigos, o ar que ressumbrava a cultura, tudo isso fazia da Livraria Cultura, na esquina da Av. Paulista com Rua Augusta no majestoso Conjunto Nacional, um lugar único que agora, conforme li pela manhã, para minha imensa tristeza, será fechado.
Claro que São Paulo ainda conta com pequenas (e apaixonantes) livrarias de bairro e elas vão resistindo bravamente sabe-se lá até quando, mas quando perdemos uma livraria do porte da Cultura, é como se um tiro no peito dos amantes da literatura fosse disparado. Ali eu comprei incontáveis livros, cheguei a deixar um mês de salário praticamente inteiro ao comprar vários e vários livros, de uma tacada só e não me arrependo nem por 1 segundo sequer. Ali também dei para minha filha um CD que sei que foi fundamental em sua construção musical, do Los Hermanos, o terceiro e certamente melhor da discografia dos caras que escolhi a dedo e disse para ela curtir cada música. A morte da Livraria Cultura não mata minhas memórias sobre ela (ainda), já que ando paulatinamente perdendo minhas lembranças, mas me impede de construir novos momentos.
Por muito tempo passear no fim de tarde na Paulista, ali no Conjunto Nacional e comprar um livro para depois pegar alguma sessão de cinema na região era para mim a tradução de um dia perfeito. Vi alguns dos filmes fundamentais em minha vida com o livro que tinha acabado de comprar na sacola da livraria e querendo pegar o metro ao final para já ir até a Penha onde morava lendo o início daquela obra. Sempre me permiti a surpresa de títulos escolhidos na hora, a descoberta de novos autores, a mescla com os clássicos, a paquera com uma atendente que embora nunca tenha passado disso, uma paquera, era tão prazerosa que me fez por um tempo ir 5x na semana e sempre trocar aqueles sorrisos cúmplices com a moça.
A Livraria Cultura fez parte da minha vida, da moinha história e agora ela se vai, curvada sob o peso de um sociedade cada vez mais iletrada e que orgulha de assim ser, que demanda vídeos retardados em plataformas de redes (anti)sociais igualmente retardadas, protagonizados por retardados e consumidos adivinhem por quem? A geração Instagram precisa conhecer a beleza dos livros de Sebastião Salgado, deveria entrar em contato com os livros que foram a base para filmes grandiosos. Deveria ler e amar a literatura Portuguesa e toda a sua melancolia e ironia e critica social contida em escritos como "Os Maias", pra ficar em um exemplo.
O que será instalado no local onde estava a Livraria Cultura? Ao que parece, ela não fecha de imediato, pois sua diretoria pode recorrer da determinação falimentar, mas tenho medo que seu fim seja de qualquer forma inexorável. Tenho mais medo ainda que uma famigerada "queima de estoque" seja feita o que seroa para mim algo degradante, uma vez que livros tem o seu valor atrelado a seu conteúdo não a uma etiqueta na capa. A Livraria Cultura deveria ser perene. José Saramago, o incrível escritor Lusitano, ao visitar as suas instalações na Av. Paulista a classificou como "uma moderna, bela e eficaz catedral dos livros".
Tenho 3 lembranças muito especiais da Livraria Cultura. A primeira foi quando comprei para Rafaela o já citado CD do Los Hermanos. Fomos visitar a livraria e eu quis apresenta-la para um dos meus endereços favoritos em SP. Estava comigo também Graziela, meu amor que certamente gostou da visita. A segunda, foi o dia que achei, após imensa e intensa procura a minha edição favorita de Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote De La Mancha), que a referida atendente guardou especialmente para mim (gosto de pensar que assim foi) e me avisou ao chegar e por último uma compra que fiz do incomparável "Mrs Dalloway" a quem presenteei alguém a quem muito estimo. O presente não foi completo por deveria ter ido junto com "The Hours" (As Horas) de Michael Cunningham que deu origem ao belíssimo filme homônimo e que tem como uma das protagonistas adivinhem quem? Sim, Virginia Woolf que escreveu o sublime "Mrs Dalloway" Antropofagia pura. Não a toa, Cunningham ganhou um Pulitzer pela obra. Acontece que "The Hours estava em falta. Acontece nas melhores livrarias.
Torço para que a Livraria Cultura consiga reverter o decreto de sua falência. Torço para que a arte não morra um pouco mais nesse tão culturalmente aviltado Brasil. Torço para que "Mrs Dalloway" tenha sido lido.
É isso.
Ouvindo: Beatles
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