Um Dia (Pena Que Eu Tenha Ficado)

 

Um dia a gente acordou e era um dia de semana como tantos outros dias. E nesse dia específico eu não precisava ir trabalhar. A gente fez algo muito, muito raro que na nossa rotina que foi tomar café da manhã juntos. Ela fez uns bolinhos de massa bem simples que sempre eram deliciosos fritinhos e sequinhos e enquanto a gente comia, a gente conversou sobre assuntos diversos. Gostaria de dizer que lembro sobre o que falamos, mas simplesmente não me lembro. Lembro o suficiente para dizer que o papo era bom, pois houveram risadas e aquelas ironias típicas que aprendi com ela desde sempre.

Eu tinha, ou melhor tínhamos um cachorro na época e era um tempo em que se lia jornal. Eu peguei o cachorro que era um Collie com um nome bem esquisito, ele se chamava Shogun, e fui até a banca de jornais para comprar a Folha de São Paulo. Um jornal as 10:00 da manhã já perdeu a validade, mas para mim o que sempre contou na leitura não eram as noticias, que sempre ficam datadas muito rápido, mas a análise de cada uma delas eu me perdi na leitura das tais análises por mais de 1 hora.

A esta altura, ela já estava preparando nosso almoço e me perguntou se eu queria que ela fizesse um bolo para a tarde. Eu estava vendo a Ilustrada, o caderno de artes da Folha e nesse momento me veio a cabeça   que se já era raro eu estar em casa, tomar café com ela e de bobeira ler um jornal, seria bom tornar aquele dia ainda mais diferente do que estava sendo e a convidei para depois do almoço sairmos, passearmos por ai, pela cidade de SP, ver a vida que pulsa além do bairro do Cangaíba, onde morávamos. E assim fizemos.

Pegamos um ônibus até o metro Tatuapé e de lá um metro e depois outro e mais um até descermos na estação consolação na Av Paulista, e dali andamos até o n.1475, onde fica o Cine Café Fellini. Ela sempre foi curiosa embora tão tímida quanto eu e sem coragem  de ir a lugares que não conhecia. Eu sabia que ela gostaria do local e na saída de casa disse que ao invés de fazer um bolo, eu a levaria para comer uma fatia (ou 2 ou 3), e ainda veríamos um filme bom. Quando sentamos e ela pediu um suco de laranja, a conversa começou. Embalados pelo ambiente cinéfilo falamos de tudo. De sua saída da casa de seus pais, de suas expectativas quase sempre frustradas por uma vida que não era bem a que ela esperava, do meu nascimento e de como muita gente me queria tomar de seus braços, de Fernanda (sobre Fernanda, foi a única vez que falamos na vida mas valeu demais a pena).

Falamos sobre seu vício e sua luta contra ele. Sobre sua profissão e como seu vício a afetava no desempenho de suas atribuições. Ela me disse para que eu não me iludisse com o excesso de cabelo que tinha pois provavelmente ficaria careca como meu pai era. 2 sucos de laranja depois ela perguntou se poderia tomar uma cerveja e eu pedi que não. Ela aquiesceu. Nossa conversa continuou e continuou. E foi tão bom conversarmos! Eu falei dos meus livros e músicas favoritos e da minha namorada na época e quando eu disse que já tinha ido ao Cine Café com a namorada dúzias de vezes e ela era a primeira vez, senti que houve uma ponta de ciúmes e tristeza.

Acontece que ela, minha mãe, sempre teve uma altivez insuspeita e não deixava que suas emoções ficassem visíveis com facilidade então logo o assunto se desviou para que filme veríamos. Mas a conversa estava tão boa, que saímos dali e fomos caminhar pela Av Paulista e fizemos o trajeto conversando  e eu lhe mostrando os prédios e contando sobre as empresas que ali estavam e do parque Trianon e no vão do Masp a gente parou pra ver a apresentação de um desses artistas de rua. Foi uma bela apresentação, ele leu poesias e cantou canções que ou eram da Bjork na língua nativa dela ou ele estava totalmente inviabilizado por algum substância alucinógena para cantar de forma que se pudesse entender. Mas como ela me disse, como dona Alexandrina, minha mãe falou, "a arte quando é boa, se faz entender sem necessidade de explicações maiores".

Nunca mais passeamos, nunca mais nos conectamos daquela forma. Eu continuei e continuo achando que ela gostava mais de Fernanda do que de mim e continuo achando isso muito aceitável porque minha irmã em sua breve vida foi muito mais adorável e especial do que qualquer outra pessoa que eu tenha conhecido. Pena que ela tenha se ido tão cedo e abalado de forma irremediável a saúde mental de minha mãe com sua partida. Pena que eu tenha ficado e não tenha conseguido fazer nada para reverter a situação. Pena que eu tenha ficado. Pena que minha mãe tenha-se ido também. Pena que eu tenha ficado. A vida não é um filme onde o diretor pode decidir os que ficam e os que vão e nem tem o recurso de mudar um final caso o público não tenha gostado e remontar a sua trajetória como um executivo da Warner por exemplo pode remontar um filme que foi um fracasso. Pena que elas tenham ido. Pena que eu tenha ficado. Mas na somatória de tudo, aquele dia foi um dia realmente bom e quando voltamos para casa, a noite ja avançava em horas e Shogun estava com fome. O alimentamos, dormimos e no outro dia, fui trabalhar. Pena que eu tenha ficado.

É  isso

Ouvindo: Maria Callas

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