Eu Sou o Meu Maior Assassino

 

O que me mata e mata lentamente, sem pressa, sem grandes atropelos, não é de forma alguma qualquer coisa que venha de fora, que seja externa, que eu não possa controlar. Nada disso. O que me mata é exatamente o que produzo contra mim mesmo, ou seja, eu sou meu maior assassino. De forma contínua e sem pressa, onde cada ação que tomo contra mim parece mais uma carícia que uma porretada em minha cabeça, vou minando minhas forças e energia até o momento em que nada sobrará além da lembrança de quem fui um dia.

Pela minha boca saem as palavras que me ferem mais que qualquer coisa que posso escutar de outrem. Se alguém sabe depreciar a mim mesmo, esse alguém sou eu. Com maestria insuspeita, com uma verve incomum e até certa elegância, sei bem o que dizer sobre mim que vai logo em seguida acabar com meu animo. Não apenas dizer, mas escrever, pensar, fazer uma avaliação acurada de quem sou e como me comporto, tudo isso vai assassinando meu espírito de forma gradual e irreversível. Eu sou bom, muito bom em não gostar de mim e não, isso não é um auto elogio ou uma fala auto indulgente. É só a verdade.

O que eu como também me assassina dia a dia. Não pelo que eu como mas a quantidade, horários, a compulsão por doces que um diabético jamais deveria ter, a falta de  regras, de limites, tudo isso e um jogo que jogo contra mim e invariavelmente perco. Não tenho chance alguma de vencer meus próprios desejos que não obstante não trazerem nada de bom além do prazer momentâneo que uma mordida em algo açucarado ou massivo traz, deixam pequenas bombas relógio pelo meu corpo que vão explodindo de tempos em tempos assassinando meu físico já combalido.

Morrer, dentro da forma que eu lido com a morte e principalmente sobre o que eu acredito sobre o pós morte, não é de forma alguma um problema tirante o fato de que eu gosto de viver. Porém, essas tentativas de assassinato que perpetuo contra mim mesmo me fazem questionar se de fato sou tão apaixonado pela vida. Ela, a vida,  anda dura, cansativa, menos aprazível e não pelas pessoas que me cercam, mas por mim mesmo. Eu poderia dizer que me sinto como um personagem qualquer de um filme de Sofia Copolla, talvez o ator  enfadado de "Lost In Translation" mas isso seria uma forma esnobe de falar do meu próprio enfado com a vida, citando um filme que ninguém viu só para parecer intelectual. Puro assassinato de mim mesmo.

Eu todo dia dou um jeito de me sabotar, de dar um tiro em alguma parte não letal do meu corpo e me ver sangrar. Eu sangro devagar sob meus olhos atentos e por algum motivo a ferida cicatriza só para ser refeita em algum outro momento e sangrar novamente. E de sangramento em sangramento, uma hora o sangue acaba. 


É isso.

Ouvindo: Dawkins & Dawkins

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