Pedro e Sua Dança Desconexa Com As Redes

 

Parece que Instagram virou a versão moderna daquelas agências de emprego que existiam (existem ainda?) quando eu era adolescente. Pelo menos o meu. é impressionante a quantidade de anúncios que venho recebendo com as mais variadas propostas de emprego. Desde descarregar caminhões aos finais de semana até enveredar pelo venda de vinhos refinados. Alguém esta comendo bola ao me ofertar esses lances ai pois não bebo e não tenho força física pra descarregar caminhões. Já tive, é bem verdade. Hoje mal consigo carregar meu corpo em alguma caminhada mais extensa. 

No meio desses extremos aparecem toneladas de vagas para trabalhar como vendedor. De carros, de imóveis (por óbvio), de fones de ouvido de alimentos em supermercados, enfim, de muita coisa. Eu não quero vender mais nada. Nem imóveis para ser sincero. Perdi a vontade e acho que perdi a competência também para tanto. Mentira. A competência continua aqui, intacta, mas perdi a vontade a paciência que nunca tive. Hoje eu gosto de fazer 2 coisas. Observar Pedro em seu barco, a noite e observar aquela mulher Samaritana que nem do nome se sabe. Hoje eu vou falar de Pedro.

Pedro vai pescar a noite. Eu não entro  em um barco a noite nem amarrado, não entro no mar a noite nem que paguem ao menos que eu esteja em um transatlântico e ainda sim estarei aterrorizado e em alerta permanente. Mas Pedro não tem esse medo. Ele entra no barco e vai pescar. As vezes acompanhado, as vezes só mas mesmo só, eu creio que Pedro como eu sempre esta acompanhando seu seus pensamentos, então nunca está só de fato. Existem noites em que a Lua o acompanha e em outras o céu esta tão fechado que só consigo ver um vulto muito ao longe movendo-se de forma furiosa de um lado para outro do barco em um movimento de jogar e recolher as redes de pesca que é tão ritmado quanto enlouquecedor. Parece uma dança que se dança só, mas em noites sem luar é uma dança triste acompanhada de gritos e impropérios que se propagam pelo silêncio que uma praia vazia proporciona. Só as ondas morrendo na areia naquele vai e vem constante quebram a falta de som. As ondas e os impropérios de Pedro.

Não conheço os hábitos dos peixes e não sei se a noite os deixa mais vulneráveis mas eu sei que certamente o seu manto de escuridão esconde as vulnerabilidades muitas que Pedro insiste em esconder por trás de sua personalidade exuberante, para dizer o mínimo. Sempre pronto a gritar com alguém, a discutir, a impor-se pela força se preciso, ali no mar, sozinho, lutando por seu sustento sem saber que o observo, ele chora. Chora a sua falta de grana, chora seus muitos erros, chora a sogra sempre doente, chora a falta de uma vida melhor. Chora ver prosperarem os que não merecem enquanto ele sempre patina. Pedro tem um sendo de justiça muito apurado mas anda se perguntando se ele vale de algo uma vez que a injustiça a sua volta só cresce e ele nada pode fazer além de constatar a escalada do mal. De que adianta perceber o mal e ser completamente indefeso contra ele? Pedro tem muitas perguntas assim como eu também as tenho. As vezes tenho vontade de sentar com ele ali na praia, fazer uma fogueira e conversar longamente com ele.

Acontece que eu não converso longamente com ninguém. Não tenho paciência, não tenho assunto ou as pessoas não tem assunto comigo, sei lá. Como Pedro, eu prefiro desenvolver meu trabalho sozinho, sem falar com  diferença que não posso gritar impropérios e nem chorar, tenho que engolir calado mesmo. A noite é uma válvula de escape para Pedro de tudo o que o dia lhe trouxe de ruim. Eu vejo como ele se movimenta naquela dança solitária e queria ter coragem de entrar no barco com ele, mas sou um cagão. 

Houve uma noite em que Pedro estava especialmente agitado. Em seu barco com a companhia de outros barcos ao redor eu via a Lua  iluminando as faces duras e cansadas. Normalmente Pedro sempre tinha uma quantidade razoável de peixes para vender no mercado no dia seguinte mas essa noite trouxe a ele e seus amigos apenas lamúrias generalizadas. Nada de peixes, nada de seu sustento. Pedro estava furioso e eu estava decidido a falar com ele ao fim de sua pescaria. Ia falar que temos vidas similares. Que sua aparente raiva é a mesma que eu sinto, que sua inação é a minha e que sua estupefação com o mundo e para com os rumos que ele esta tomando é igualmente minha. Passei a madrugada esperando que ele terminasse aquele bailado frenético.

Quando finalmente ao nascer do dia ele atracou e já ia me levantando para lhe falar, um homem apareceu. Vindo sabe-se lá de onde, ele surgiu e chamou por Pedro. O olhar que Pedro lançou  ao homem me fez por um minuto ficar aliviado de não ter falado com ele, pois era quase ameaçador. Porém o homem começou a falar com ele de forma tranquila e isso o desarmou. Pedro mostrou que não tinha pescado nada aquela noite assim como seus amigos, e o homem o mandou jogar novamente as redes ao mar. Quando ele as puxou ficaram espantados todos os homens ao redor, Pedro e eu ainda mais. O homem, a quem todos chamavam de Jesus, disse-lhe para que o seguisse e sem qualquer pergunta, impulsivo como eu também sou, Pedro se foi com ele e mais alguns que o rodeavam.

Nunca mais vi a Pedro. Desse Jesus, ouço falar de vez em quando, as pessoas não parecem ainda entender muito bem do que se trata as tantas palavras que ele diz que se por um lado os acalmam, por outro os frustram pois falam de um reino futuro enquanto todos querem libertação imediata. Eu meio que entendo o contexto do que ele diz e até concordo mas não sei se acredito como algo real ou se classifico como lendas muito bonitas e bem estruturadas porém nada mais que isso, lendas. Suas palavras não me parecem se conectar com o mundo real sempre tão duro, competitivo e cheio de pessoas que não se importam com as outras apenas com seus próprios interesses.

Esse Jesus esta sempre reunindo as pessoas e elas parecem ter prazem em ouvir o que ele tem a dizer. Eu ja fui em algumas dessas reuniões mas fico de longe, tenho muito medo que ele olhe para mim e me chame para segui-lo, embora eu não tenha serventia alguma em sua causa ou qualquer outra causa. As vezes, volto a praia a noite na esperança de ver se Pedro voltou ao seu dia a dia e a sua dança desconexa com as redes. No entanto, tenho total uma certeza dentro de mim que diz que quem se encontra verdadeiramente com esse Jesus não volta mais ao que fazia, ao antigo modo de viver. Das vezes em que vi Pedro andando ao lado de Jesus, ele parecia muito feliz, como nunca esteve antes. Eu o invejo, afinal, fica claro que ele não tinha apenas coragem de entrar no mar, a noite para pescar. Ele também tinha a coragem necessária para seguir aquele homem chamado Jesus. Já eu, continuo sentado em meu lugar de sempre, perto do mar a uma distância segura. Pedro não virá mais mas talvez eu esteja esperando que esse Jesus apareça, embora eu saiba muito bem onde encontrá-lo.

É isso.

Ouvindo: Os Arrais

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