quinta-feira, 20 de março de 2025

Olívia

 

Olívia é uma boneca de pano que tem um olhar doce como um favo de mel e ao mesmo tempo ameaçador como o de uma boneca Vudu. Não tenho a menor ideia de como ela foi parar em casa, mas um dia a vi no sofá e me apaixonei a primeira vista. Ela "dorme" todas as noites desde então entre eu e Graziela e de uma forma inusitada virou mais minha do que de Graziela, que adora bonecas de pano.

Eu as vezes converso com Olívia e as vezes apenas mantenho um silêncio obsequioso que protege seus ouvidos delicados de minhas tantas falas que si, são capazes de irritar até o ser inanimado que Olívia é. Ao mesmo tempo em que "conversamos" e silenciamos eu fico a me perguntar porque aos 52 anos virei um homem, ou melhor, uma pessoa, que brinca com bonecas. 

Não ei ao certo a resposta mas não me importa também e meus questionamentos em sua grande maioria são assim, morrem pelo meu próprio desinteresse em aprofunda-los. Não existe filosofia em brincar de bonecas ou "conversar" com bonecas. Existe o prazer que tais atitudes trazem ou não e no meu caso, quando acordo no meio da noite e percebo Olívia ali bem perto a minha cabeça sempre de olhos abertos, volto a dormir tranquilo com sua presença qu as vezes me traz conforto em diversos níveis.

Não fui eu quem a batizou, se fosse por mim, ela se chamaria Beatriz, assim como Rafaela deveria ter se chamado Beatriz, mas não tenho, como fica claro, poder de decisão em nomear pessoas ou bonecas e tudo bem também, não faz assim tanta diferença  o nome que se dá a quem quer ou o que quer que seja.

Eu brinco de boneca ultimamente e talvez logo eu pare, me desinteresse. Esse sempre foi meu comportamento padrão com a grande maioria das pessoas salvo raríssimas exceções, eu me desinteresso por elas e pronto. Por que seria diferente com um boneca de pano? 

Talvez porque eu a idealize como eu gostara que fosse e como ela não me responde efetivamente sendo que suas respostas são as que eu mesmo imagino (a loucura se revela lentamente), eu posso imaginar que ela seja como eu quero. Eis ai a diferença fundamental entre eu e Deus que não me criou boneco de pano mas um ser pensante. Basicamente um idiota, mas pensante. 

Por enquanto eu amo Olivia e amo brincar com ela. Se eu morasse em Downton Abbey,  tomaríamos chá as 5:00 eu de verdade, ela de forma lúdica. Mas eu moro em Osasco e chá das 5:00 em Osasco não tem a menor graça. Assim como esse post.

É isso.

Ouvindo: Blade Runner, trilha sonora.

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