Entre o Mel e o Vudu

 

Olívia é uma boneca de pano que tem um olhar doce como um favo de mel e, ao mesmo tempo, ameaçador como o de uma boneca vudu. Não tenho a menor ideia de como ela foi parar em casa, mas, um dia, a vi no sofá e me apaixonei à primeira vista. Ela "dorme" todas as noites, desde então, entre mim e a Graziela e, de uma forma inusitada, virou mais minha do que dela — que é quem realmente adora bonecas de pano.

Às vezes converso com Olívia; em outras, apenas mantenho um silêncio obsequioso que protege seus ouvidos delicados de minhas tantas falas que, sim, são capazes de irritar até o ser inanimado que ela é. Enquanto "conversamos" e silenciamos, fico a me perguntar por que, aos 52 anos, virei uma pessoa que brinca com bonecas.

Não sei ao certo a resposta, mas também não me importa. Meus questionamentos, em sua grande maioria, morrem pelo meu próprio desinteresse em aprofundá-los. Não existe filosofia em brincar com bonecas. Existe o prazer que tais atitudes trazem — ou não. No meu caso, quando acordo no meio da noite e percebo Olívia ali, bem perto da minha cabeça, sempre de olhos abertos, volto a dormir tranquilo. Sua presença me traz conforto em diversos níveis.

Não fui eu quem a batizou. Se dependesse de mim, ela se chamaria Beatriz — assim como a Rafaela deveria ter se chamado Beatriz. Mas não tenho, como fica claro, poder de decisão em nomear pessoas ou bonecas. E tudo bem também; não faz tanta diferença o nome que se dá a quem quer que seja.

Brinco de boneca ultimamente e, talvez, logo eu pare ou me desinteresse. Esse sempre foi meu comportamento padrão com a maioria das pessoas: salvo raríssimas exceções, eu me desinteresso por elas e pronto. Por que seria diferente com uma boneca de pano?

Talvez porque eu a idealize como gostaria que fosse. Como ela não me responde efetivamente — e suas respostas são as que eu mesmo imagino (a loucura se revela lentamente) —, posso projetar nela o que eu quiser. Eis aí a diferença fundamental entre mim e Deus, que não me criou boneco de pano, mas um ser pensante. Basicamente um idiota, mas pensante.

Por enquanto, eu amo a Olívia e amo brincar com ela. Se eu morasse em Downton Abbey, tomaríamos chá às cinco — eu de verdade, ela de forma lúdica. Mas eu moro em Osasco, e chá das cinco em Osasco não tem a menor graça. Assim como este post.

É isso.

Ouvindo, Blade Runner (a trilha sonora de)

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