A Cracolândia Das Letras


Escrevo achando que vou me aliviar. Escrevo como se estivesse tomando um copo de água que vai matar a minha sede, saciar minha alma e me deixar dormir. Ledo engano. Quanto mais escrevo, mais questões se abrem a cada parágrafo; sinto-me sedento de respostas que não tenho. Minha mente e meu coração se inflamam em uma busca inútil por sentidos em uma vida que parece me escapar dia após dia.

Quem me vê falar de mercado imobiliário ou de política talvez não perceba que os assuntos que realmente me interessam são justamente os que me fogem. Neles sou leigo; não sei o que pensar, como me expressar ou o que fazer para resolver essa ignorância. Durmo e acordo com o sentimento de que falho miseravelmente nas tentativas de me entender e de compreender o mundo. Apenas repito ideias que surgem no calor de alguma conversa, mas que não suprem meus anseios, nem preenchem a dor que advém dessa falta de respostas.

Se existisse uma "Cracolândia" dos que escrevem, eu moraria lá. Uso esse termo porque o céu dos escritores — na verdade, nenhum tipo de céu — é para mim. Sou um perdido, um iletrado que finge escrever, mas não consegue sequer tocar a superfície do que gostaria de dizer. Antes disso, afundo-me em pensamentos secundários que obliteram meu raciocínio real, impedindo-me de expressar de forma adequada e minimamente elegante o que pretendo. Sinto-me patético, grotesco: um "Janjão" literário que escreve de forma obtusa e pretensamente densa. São escritos raros e pueris, como a névoa que se esvai com os primeiros raios de sol.

No fundo, é isso. Tudo o que produzo se esvai por falta de qualidade e profundidade. O que consigo gerar é desinteresse, enfado e, talvez, lágrimas — não de emoção, mas de raiva, quando o outro percebe o tempo que perdeu ao me ler. Sinto-me uma fraude produzindo textos fraudulentos em sua tentativa de impactar ou criar qualquer emoção, por mais rasteira que seja.

Não sei escrever, mas sou teimoso. Desculpem. 

É isso.

Ouvindo: Pearl Jam

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