Cartas Que Nunca Chegarão


Paula Toller, sempre brilhante, cantava há muito tempo (e creio que ainda canta em shows eventuais do Kid Abelha) para Alice não escrever aquela carta de amor; pois, segundo ela, não saberia o que responder.

Bom, eu saberia o que responder se recebesse uma carta de amor. Na verdade, eu anseio por uma. Anseio por uma carta que nem precisa ser, estritamente, de amor — apenas que me diga palavras positivas, que não me critique e não enumere tudo o que fiz ou faço de errado. Uma carta que fale sobre algo bom que eu tenha feito ao longo dos anos, ou mesmo há pouco tempo. Eu a consideraria uma carta de amor.

Se chegasse às minhas mãos, eu seria feliz como há muito não sou. Sendo feliz, acho que dançaria como o personagem de "Valsinha", onde Chico Buarque e Nelson Gonçalves cantam que os amantes se puseram a rodar no meio da praça; e entre risos roucos e gritos loucos, o mundo amanheceu em paz para eles. A música não menciona o quanto viveram sem esse despertar pacífico.

Meu amanhecer, normalmente, é sobressaltado. Penso em qual besteira irei fazer para ser criticado, qual palavra errada direi em meio às pessoas e por qual serei julgado — ouvindo que melhor seria o meu silêncio. Se Alice me escrevesse uma carta dizendo que digo boas coisas, ou que simplesmente posso existir sem incomodar tanto, eu me sentiria amado.

É triste não se sentir amado. É brutalmente triste sentir que, se amanhã fosse o dia da minha partida, nada mudaria para ninguém. Não peço que enterrem meu coração na curva do rio; por mim, se jogassem meu corpo preso a pedras para que não flutuasse, já estaria bom. Mas meu coração queria, antes da partida, um afago.

O que tenho para escrever é um lamento — e escrever mal. Um lamento de ser quem sou, como sou e, sobretudo, por saber que Alice não me escreverá carta alguma. Nem ela, nem ninguém.

Ouvindo: Valsinha, com Cico Buarque e Nelson Gonçalves

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