Insônia, Insulina e Outros Nós
É madrugada e o sol ainda não pensa em aparecer. Se ele vier, será daqui a umas duas horas, pois faz um certo frio e há uma névoa que avisto daqui do 12º andar. Choveu ontem à noite e deu uma amenizada na secura do tempo, mas não o suficiente. O clima vai ficar cada vez mais maluco, eu sei. Em anos anteriores, eu jamais estaria na sala com a porta da sacada aberta e sem camisa, pois estaria frio demais para isso. Caos.
Estou tentando lidar com as canetas de insulina que uso diariamente para aplicar as doses do remédio que me mantém minimamente funcional. Ambas quebraram e faz três dias que não tomo as doses corretas. Minha visão não está das melhores e sinto meu corpo tremer, mas, no final das contas, eu deixo para lá. Não tenho paciência com objetos quebrados que não sei arrumar. Depois tento comprar outras canetas.
Me irrita mais o mouse do meu notebook ter partido o fio. Não o que vem acoplado a ele, mas o que uso como acessório. Não gosto do mouse que vem com o note; não desliza para cima e para baixo com a mesma destreza do outro. Não gosto também de mouses sem fio porque uso muito e a pilha acaba rápido — como minha bateria social. Hoje preciso comprar outro mouse, sem falta. Se as canetas fossem baratas como o mouse, eu seria mais feliz.
Não gosto do mouse, não gosto de muita coisa, na verdade. Duvido que eu goste realmente de mim e tenho pena de minha pessoa quando me ponho a escrever, ainda mais em uma madrugada insone que logo será dia feito e me encontrará trabalhando na única coisa que sei fazer, que é vender imóveis. É triste chegar à conclusão de que só sei vender imóveis. Triste, mas real.
Eu teria sido um bom jogador de vôlei e, quanto a isso, não tenho dúvida. Quando criança, tinha um talento nato para este esporte, mas acabou que não o desenvolvi, como não desenvolvo quase nada na vida, e as coisas vão ficando pela metade ou mesmo pelo primeiro terço. Assim sou eu: um homem de terços e, no máximo, metades. Incompleto como as ideias que tento transpor para textos ruins e sem graça.
Graziela dorme, Vivi dorme e até os gatos, Bernardo e Biana, dormem. Eles dormem na manta em cima do sofá, pois os gatos são felizes dormindo. Não sei se sou feliz dormindo, mas é o momento em que cessam os pensamentos que me assombram durante o dia; as lembranças de um passado distante que andam voltando com força. Mesmo no sono, de uns tempos para cá, o que era apenas vazio e trevas vem se transformando em sonhos que eu fico lembrando durante o dia. Não gosto de sonhar, mas não tenho controle sobre isso.
Tentei novamente arrumar as malditas canetas, mas acho que acabei de quebrar ambas. Minha inabilidade manual é impressionante; rivaliza apenas com a minha inabilidade de me relacionar com pessoas de forma minimamente adulta e racional. Neste momento, mal vejo a tela e o que escrevo.
Espero poder assistir ao show da Shakira no sábado. Dessas cantoras que vieram ao Brasil, sem sombra de dúvida, ela é minha favorita. A música latina tem me tomado muito tempo de escuta e tenho gostado disso (de alguma coisa eu tinha que gostar). Gosto da voz dela e de sua dança, além de suas canções serem de qualidade.
Eu queria voltar a dormir, mas já já vou ter que ir para o trabalho. Eu queria escrever e colocar para fora o que realmente sinto, mas sou incapaz de traduzir de forma correta o turbilhão de emoções que me assalta. Eu queria comer panquecas daquelas americanas, com muita calda de morango, mas seria um convite para a morte. Eu queria, na verdade, só por uns breves momentos, descobrir o que é ser feliz.
A névoa aos poucos se dissipa. Talvez o sol venha mais cedo.
É isso.
Ouvindo: Shakira
Comentários