O Dilema De Jordan: O Silêncio Do Sagrado
Eu não canso de lutar. Não canso de me rasgar, me remendar e me rasgar de novo. Na verdade, eu me canso, sim. Mas não desisto. Tenho o sonho de, um dia, não precisar mais disso; de poder apenas descansar sem me perguntar qual será a luta do dia seguinte ou qual fardo me espera. Pergunto-me quantos passos faltam até o próximo ponto de intersecção que me levará ainda mais longe, revelando que a caminhada é, na verdade, infinita.
Hoje, acabei de assistir ao episódio 7 da sétima temporada de The Good Doctor, intitulado — não por acaso — "Faith" (Fé). É tocante uma das subtramas, em que um paciente acredita ser Jesus devido a uma condição clínica. Ele é rechaçado pelos médicos que, colocando a ciência em primeiro lugar, conseguem "provar" que ele tem um tumor, e não que é, de fato, o Messias.
Talvez a fé seja uma falha na lógica. Mas a falta dela também pode ser vista como uma falha daqueles que não se submetem ao sobrenatural — logo nós, cuja própria existência já beira o inexplicável.
Eu me rasgo tantas vezes acreditando que meus esforços serão recompensados. Isso pode ser visto como falta de fé em um Deus que poderia suprir todas as minhas necessidades, sejam elas físicas ou espirituais. Por outro lado, se paro de lutar e o resultado não me agrada, sinto como se tivesse confiado no vazio. Sinto que ouvi uma voz que nunca vi ou escutei, mas que me obrigo a crer que emite sinais.
Por que não consigo decidir? Por que não consigo abraçar plenamente o que aprendi na infância — que existe um Criador — e, ao mesmo tempo, não consigo viver como se Ele não existisse? Por que busco evidências de alguém em quem sequer acredito? Por que, quando me sinto rasgado pela luta, vejo algo que nada tem a ver comigo e, de repente, sinto-me em paz e pronto para crer no divino?
No episódio, fiquei com raiva da Dra. Jordan. Sua inquirição negativa me pareceu uma extrema falta de fé. Se Jesus existe, Ele pode se manifestar como quiser. Ele veio para "confundir os sábios", e talvez use justamente a forma que mais nos desafia.
Sinto-me cheio de dúvidas, e esse preenchimento me torna vazio. Não consigo pensar como um cristão, nem como um ateu. A posição agnóstica, que antes me confortava, hoje me parece escapista — uma forma de não encarar o espelho e protelar uma decisão que precisa ser tomada.
Eu me rasgo todos os dias. Eu me rebobino, rodo e sinto que não chego a lugar algum. A paz prometida aos "filhos de Deus" passa longe de mim, o que me entristece. Ao mesmo tempo, a fúria de não acreditar em nada me deixa ainda mais sem direção.
Minha fé, se é que ela ainda existe, não se solidifica; fica como uma massa informe vagando por dentro de mim. Quero ter forças para crer ou para não crer de vez. Quero tomar uma decisão final, antes que o final me alcance sem que eu tenha decidido nada.
Ouvindo: Love, Live and Other Mysteries – Point of Grace.
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