Detergente, Dogmas e a Liberdade de ser Plural


Só um "xarope" — gíria antiga e datada, eu sei — tomaria detergente apenas para provar que ele está livre de bactérias, expondo-se ao perigo de morrer por inúmeras outras intercorrências que este ato insano pode acarretar. Acontece que a dita "direita" brasileira está lotada deles. No afã de provarem pontos de vista sem sentido, como o de que a Anvisa estaria perseguindo os donos da fábrica de produtos de limpeza Ipê, eles querem "provar" que o detergente não faz mal. Provam apenas que são estúpidos.

São as mesmas pessoas que se debateram contra a vacina desenvolvida para combater a Covid-19 e, depois, ampliaram o espectro para todos os imunizantes, alegando que não possuem comprovação de eficiência. Esse povo, que escuta a Jovem Pan e vota em Adrilles Jorge (por acaso um ex-BBB), mostra a bizarrice de gritar contra um "sistema" tendo participado dele da forma mais aviltante possível: servindo de entretenimento barato para as massas.

Essas pessoas não têm pudores ao defender seu estilo de vida, ainda que isso coloque em perigo seus filhos, seus avós e todo e qualquer ser humano mais vulnerável que precise de vacinas e assistência do Estado. Para eles, o Estado não deve assistir as pessoas, mas sim deixá-las à própria sorte por não terem conseguido "vencer na vida", tornando-se um peso que ninguém deve carregar — por mais que nosso país seja injusto na distribuição de oportunidades e renda.

Um povo que insufla boicote às Havaianas, ícone da moda nacional, por uma suposta campanha a favor da "esquerda"; que tenta censurar filmes, novelas e programas de TV em nome da "segurança da família", ainda que isso signifique o cerceamento das liberdades individuais que eles mesmos dizem defender, não merece nem liberdade, nem segurança.

Chega a ser incompreensível falar de liberdades quando o que desagrada a uma parcela da população não pode ser apenas ignorado, mas precisa ser banido para não "contaminar" os que detêm o monopólio do certo e errado. É aí que reside o perigo: arvorar-se guardião da moral baseado apenas em crenças frágeis e de fácil contestação.

A verdadeira liberdade consiste, a meu ver, em conviver com o que nos incomoda e confronta, tendo a força para não nos abalarmos com o embate e respeitando a pluralidade. É essa pluralidade que acomoda os diferentes saberes, expressões e estilos de vida.

Se alguém quer beber detergente para provar seu ponto, que beba — por mais "xarope" que me pareça. Se não quer vacinar os filhos, se deseja a volta da ditadura ou se acha que leite com manga faz mal, que seja. Mas que respeite meu direito de não comprar o tal detergente porque a autoridade sanitária assim orientou; de vacinar meus entes queridos na ciência e de ser contra o autoritarismo. Se eu quiser tomar meu leite com manga, que o tome sem ser patrulhado. 

O nome do jogo não deveria ser "Esquerda versus Direita". O nome do jogo deveria ser pluralidade e respeito.

Ouvindo: Ronnie Von

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