Inescrutáveis Caminhos: Entre o James Webb e a Relva


Antes de mais nada, a beleza da cena protagonizada pelo Tibério e o padre que o casou com Rute foi tocante. Muito tocante. Um diálogo econômico em palavras e preciso em sentido. Quase se pode ver a crença do autor escorrendo pela tela da TV a cada fala proferida. O Deus Boiadeiro é o Deus do Tibério. É o mesmo Deus em que eu creio; e embora eu não O veja como Corretor de Imóveis, entendo perfeitamente o que o peão pensa.

Para Tibério, Deus o acompanha em suas comitivas. Na verdade, Ele vai à frente, abrindo os caminhos. Deus o ajuda com o gado e, talvez, nas noites estreladas ao relento da relva sob a qual descansa, Ele desça até ali para conversar. Não que Ele se especifique em um homem, mas, na alta madrugada, o sussurro da voz divina se faz ouvir e Tibério desperta para escutá-lo enquanto os outros peões dormem.

A despeito das contradições humanas de Tibério — como o interesse por mulheres muito mais jovens, que beira o desajuste para um homem de sua idade —, ele é o silêncio que observa. É a voz da razão que tenta conduzir aquele antro de insensatez que é a fazenda de José Leôncio. Depois daquela cena tão específica, minha forma de vê-lo mudou. Interessam-me mais as camadas que ele não revela do que as que protagoniza de corpo presente. Quase posso ver Tibério pedindo proteção ao seu Deus Boiadeiro; pedindo que Ele o guie, o ajude e lhe dê conforto.

Esse Deus de Tibério deve ser, antes de mais nada, consolo. Homens rústicos, de poucas palavras, não costumam ter amigos com quem desabafar sentimentos ou a quem recorrer em momentos de dor. Deus, nesse momento — seja Ele um Boiadeiro ou um Corretor de Imóveis —, tem prazer em fazer este papel a quem Lhe pede. Deus é alívio. É uma paz que excede o entendimento, e Tibério sacou isso de forma clara e vívida.

O Deus Boiadeiro de Tibério é o Deus vivo, emocional e emocionante. Não é o Deus empolado dos estudiosos que tentam explicá-Lo, nem Aquele que alguns buscam nos confins do espaço, esperando que seja revelado pelas lentes do James Webb. O Deus em que Tibério acredita é para ser sentido. Ele abraça o peão e o faz sentir-se seguro, seja qual for a estrada percorrida. É o Deus que oferece amor de forma incessante e sem medida.

É um Boiadeiro. É essa simplicidade de definição que O torna tão único, especial e poderoso — capaz de criar galáxias que estão a 13,4 bilhões de anos-luz de nós. Os cientistas O chamariam de Big Bang; Tibério O chama de Boiadeiro; e eu O chamo de meu Pai.

Se essa novela serviu para alguma coisa, foi para tocar corações com esta cena. Os caminhos deste Deus Boiadeiro são, de fato, inescrutáveis.

É isso

Ouvindo: Tom Howard

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