Quem Quer Ser um Alienado? Ou De Como o Vendedor de BETS Fala Mal Do Bolsa Família

Eu até tento entender o que levou Luciano Huck a falar a bobagem sem tamanho que falou sobre o Bolsa Família e demais programas sociais. Antes de mais nada, para quem nunca foi pobre, nunca passou fome ou esteve perto de dormir com a barriga vazia; para quem nunca usou um tênis furado, uma calça ou camisa dada de esmola por uma alma caridosa — para quem, enfim, não sabe o que é não ter —, fica fácil proferir atrocidades sobre quem nada possui.

Ainda mais estando em um ambiente controlado, junto a outros ricaços como ele, que não sabem o que é pegar um busão lotado logo cedo para, depois, encarar um trem ou metrô igualmente apinhado, apenas para passar oito horas como serviçal de pessoas que não têm a menor consideração pelo papel desempenhado pelo pobre ali do lado.

Ou pior: porque, creiam, aqueles que fazem essa via-sacra diária para o trabalho ainda dão graças por seu salário de fome. Um ganho que não paga o café da manhã de Luciano, de seus filhos loiros e bem-nascidos, ou de sua esposa — que se antes ia de táxi, agora tem motorista particular para levá-la onde quiser. É dura a vida desse pessoal que tem jatinho privado e pode se deslocar para falar obscenidades sociais a hora que bem entende.

Agora, uma verdade precisa ser dita: todo domingo, Luciano dá aos pobres, com uma das mãos, a oportunidade de "brilhar". Seja com os três minutos no palco para cantores amadores performarem, seja com as perguntas que, obviamente, o brasileiro médio não sabe responder no Quem Quer Ser um Milionário?, ou em qualquer outro quadro em que o populacho é convidado a parecer importante.

Acontece que ele dá com uma mão e retira com as duas, em um misto de sadismo e deboche que a mim é incompreensível, ao fazer propaganda das malditas BETS que hoje levam milhões de brasileiros à ruína. É quase como se dissesse: "Ei, trouxas, peguem aqui o que eu tomarei ali com juros e correção!"

Eu até entendo, como disse no início, o lado do Luciano. Mas não entendo o lado do brasileiro pobre e de direita. Aquele brasileiro que fala mal de seu irmão que precisa do Bolsa Família, do programa do gás mais em conta, do fôlego na conta de luz. Esse sujeito, que jamais será convidado para um evento como o que Huck discursou, que jamais andará de avião comercial — que dirá de jatinho —, e que se ilude com um título de capitalização daqueles que o apresentador vende todo domingo à tarde; esse brasileiro eu não entendo.

Foi cooptado pelo sistema e cospe no prato que muitas vezes poderia ajudar a ele próprio. Concorda com falas absurdas, sem sentido, e bate contingência para "Flavinho Dark Horse". É esse brasileiro que aplaude Luciano quando ele merecia apenas o desprezo. Esse cara, que se diz "de família" mas perde o pouco que tem em apostas que jamais ganhará, não merece meu respeito.

Mas ele merecia saber que pesquisas sérias mostram que bem mais da metade dos usuários do Bolsa Família utiliza o benefício por um prazo determinado e, assim que pode, sai dele para resgatar sua dignidade em trabalhos formais ou informais. Esse brasileiro pateta precisa saber que Luciano, rico como é, usou o BNDES e seus juros subsidiados para comprar o próprio jatinho. Esse brasileiro de direita, além de alienado, é burro. E merece o pasto que lhe é servido todo domingo à tarde.

É isso.

Ouvindo: Tom Zé

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