A Alma e o Mar


A alma que, sufocada por uma angústia que sabe-se lá de onde vem, busca um respiro ao olhar para o horizonte onde o Sol está beijando a borda do mar, escondendo-se do dia para reaparecer no Japão, lá do outro lado. Eu, que permaneço sentado na mesma pedra de onde o observo, vejo as primeiras estrelas sorrirem ainda tímidas no céu, enquanto elas mesmas observam a Lua que, cheia de si, banha o mar com seu prateado belo e imaterial.

Essa alma — que quanto mais angustiada, parece mais sensível às belezas da natureza à sua volta — parece não conseguir compreender por que a beleza existe em um mundo cheio de dor e violência. Um mundo cheio de desalento e desengano, cheio de tudo o que é ruim, triste e feio, contrastando com a magnitude ao redor; ela parece duvidar que o bem possa coabitar com o mal.

E essa alma, que tenta achar uma redenção possível por onde seus olhos podem vislumbrar, força-os, tentando enxergar para além do nauseante espetáculo de degradação que consegue ver. Parece-lhe que a busca pelo belo e pela redenção é a mesma que movia um certo Cavaleiro de La Mancha e seu escudeiro, que, no fundo, eram dois loucos a lutar contra moinhos de vento.

Pergunta-se essa alma, ao sentir a brisa fria que a noite traz — agora que o Sol está alegrando os orientais e as estrelas piscam deslumbradas para a Lua —, se não seria melhor olhar para o mundo ao derredor com o olhar do Cavaleiro de La Mancha. Pois ele, embora louco, era claramente um poeta, e talvez por este motivo tivesse seu coração amortecido com um travo de felicidade que a lucidez cultivada hoje parece tornar impossível de sentir.

A esta alma bastaria o alívio de um café da manhã sem pressa, conversando com sua alma gêmea enquanto vê o dia terminar de nascer. Bastaria o descanso ao final deste mesmo dia, após um trabalho árduo, que não lhe trouxesse ao deitar-se as preocupações pelo dia que ainda está por vir e que já lhe guarda medo e angústia.

Em outras palavras, esta alma que se encanta com a beleza, mas vive cercada pela feiura — e embora tenha fé em dias melhores, quase sempre é golpeada pela dura realidade que reduz a pó essa fé tão frágil —, só queria algo simples. Ao sentar-se ali naquelas pedras, onde agora o barulho do mar se faz ouvir com uma fúria insuspeita ao chocar-se com as rochas que o freiam (como se quisesse derrubá-las de vez e continuar seu indefinido caminho, afogando a tudo e a todos com sua força esmagadora, avassaladora), ela só queria dormir sem sonhar.

É isso.

Ouvindo: do grande Lobão, Minha Aventura.

Comentários

Postagens mais visitadas